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Fé, Esperança e Amor: Os Essenciais do Evangelho na Vida e na Missão

06/03/2024 00:00:00

Ainda no século 17, o racionalismo iniciou sua saga na tentativa de condicionar a verdade ao julgamento humano, ao pensamento lógico, ao crivo do racional. Foi um golpe à fé, que vai além da razão, e se desdobrou no cientificismo do século 19, que somou ao raciocínio o experimento, na tentativa de condicionar a verdade ao que é possível se provar no laboratório ou pelo método científico, de forma empírica. Foi um golpe à figura de Deus, que não cabe no laboratório, e resultou no atual secularismo, que golpeia a igreja na tentativa de reduzir o religioso ao âmbito privado, classificando-o como antiquado ou, no mínimo, inadequado para ambientes públicos. O conjunto dessas formas de pensar pode ser chamando de pós-modernismo.

Nesses tempos pós-modernos, quando o liberalismo moral e mesmo teológico impera, a diluição de valores permeia todos os segmentos sociais e o cristianismo é pulverizado numa quantidade inumerável de preferências pessoais. Nesse contexto, somente cristãos engajados e de espiritualidade profunda farão diferença. Essa nefasta e sutil influência afeta não apenas cristãos em igrejas locais, mas também missionários em campos longínquos, tornando-se uma verdadeira ameaça ao exercício fiel da missão.

Escrevendo aos crentes de Tessalônica, capital da Macedônia, província ao norte da Grécia, onde Paulo passou não mais que três semanas durante o plantio inicial daquela igreja (At 17.2), o apóstolo afirma que haviam se tornado cristãos “modelo” para “todos os crentes na Macedônia e na Acaia” (1 Ts 1.7). Curioso que, escrevendo aos crentes de Corinto, capital da Acaia, província ao sul da Grécia, onde havia permanecido não menos que dezoito meses no plantio da igreja (At 18.11), Paulo afirma que aqueles eram “carnais”, imaturos (1 Co 3.1,2).

Qual a diferença entre os crentes de Tessalônica e os de Corinto? O que fazia dos primeiros “modelo” e dos outros “carnais”? Parece que a diferença estava na compreensão e vivência das virtudes essenciais da vida, mencionadas em 1 Ts 1.3: fé, esperança e amor. Essas virtudes são centrais nos ensinos de Paulo (Rm 5.1-5; Gl 5.5-6; Ef 1.15-18; Cl 1.4-5; 1 Ts 5.8; 2 Ts 1.3-4), mencionadas também pelo autor aos Hebreus (10.22-24) e por Pedro (1 Pe 1.21-22), e são, como nunca, atuais e necessárias no nosso dia a dia.

1. FÉ OPERANTE (prática, engajada):

A fé é o essencial da espiritualidade. Não existe espiritualidade sadia sem fé sadia. Nossa sociedade é marcada pelo relativismo, resumido na contraditória afirmação “nada é absoluto”, seu maior valor é a dúvida e seu resultado é a desconstrução de absolutos, colocando os valores mais básicos da sociedade e do cristianismo na larga faixa cinzenta do politicamente correto. Conceitos como moral, ética, família, igreja, Bíblia, e mesmo Deus são questionados e relegados ao fórum pessoal. O relativismo é um ataque orquestrado à fé e somente uma “fé operante” poderá fazer frente a ele. Somos chamados a viver uma fé que nos tire da faixa cinzenta e nos leve a posicionamentos claros (Hb 11.6).

O relativismo afeta de diferentes formas o campo missionário. Por um lado, de forma benéfica, evita o extremo do autoritarismo, do pensamento colonialista e da postura opressora por parte daqueles que ensinam a verdade. Por outro lado, de forma discreta mas avassaladora, difunde o pensamento do politicamente correto e um respeito exacerbado com o diferente que pode resultar na desvalorização da verdade do evangelho, a equiparando a outras “verdades”. Um exemplo objetivo é de quando mitos em culturas tradicionais e ideologias em culturas modernas são colocados em pé de igualdade com as Escrituras, ou são levados em tal consideração que se evita o confronto de ideias. Dialoga com o similar, expõe o não contraditório, mas se cala diante daquilo que a Palavra condena. Talvez não por acaso vemos em muitos lugares uma geração de “crentes neo-agnósticos”, que não descreem de nada mas também com nada se engajam. Precisamos de uma fé operante, que gere corações inflamados pela Palavra, crentes que não se acovardam frente às críticas de retrógrados e não negociam os valores do evangelho.

2. AMOR ABNEGADO (altruísta, que se doa):

O amor é o essencial da sociabilidade. Não existe relacionamento saudável sem amor saudável. Nossa sociedade é marcada pelo hedonismo, resumido na conhecida reinvindicação “eu mereço ser feliz”. Seu maior valor é o eu mesmo e seu resultado é o egocentrismo, colocando o homem no centro do universo em busca de autorrealização. Nessa posição, tudo o que nos cerca, como o meio ambiente, a sociedade e o próximo, torna-se nossa fonte de satisfação. Os relacionamentos se tornam instrumentais, utilitários. A igreja e até o próprio Deus passam a ser buscados pelo que têm a nos oferecer. O hedonismo é um ataque planejado aos nossos relacionamentos, e somente um amor abnegado nos dará forças suficientes para resistirmos a essa tendência corrosiva. Somos chamados a exercer um amor que nos leve ao outro, que nos faz pensar no próximo, buscar o que Deus quer para nós ao invés do que nós queremos de Deus, servir à igreja e à sociedade ao invés de apenas ser servidos por elas (Lc 12.27; Jo 13.34).

Como missionários, nem sempre nos damos conta que temos toda uma plataforma cultural para desenvolvemos ministérios centrados no homem e não em Deus, nos desejos do coração e não na obediência, nos nossos enganosos sentimentos e não na vontade d’Aquele que nos chama. Missionários influenciados pelo hedonismo têm dificuldade de conviver em equipe e de se relacionar com nativos, de enfrentar sofrimento e desenvolver resiliência, baixa disposição de pagar o preço do ministério e alta disposição para voltar atrás. Cegamente pensam mais em si mesmos, nas suas “necessidades” (que às vezes não passam de desejos), nas suas limitações e romantizam de forma exagerada suas “grandes” renúncias para estar no campo. O desafio do campo é mesmo amar. Amar a Deus de tal forma que Ele seja nosso bem maior, e o resto seja resto. Amar os colegas, as pessoas e a sociedade que nos recepciona (bem ou mal) de tal forma que nenhuma barreira seja forte o suficiente para nos impedir de compartilhar com elas esse amor.

3. ESPERANÇA FIRME:

A esperança é o essencial da afetividade, das emoções. Não existe emoção sadia sem esperança. Nossa sociedade é marcada pelo existencialismo, que orienta nossas vidas para o “aqui e agora”. Seu maior valor é o momento, e seu resultado é a supervalorização da experiência momentânea, pela qual se negociam valores e convicções. O imediatismo vem em seu bojo e nos leva a pensar no hoje, no aproveitar a vida, a viver de forma acelerada como se não existisse amanhã, ou a limitar nossas expectativas a essa efêmera existência como se não existisse vida no pós-morte. Também nos tornamos pessimistas e exigentes com a vida, deixando nossas emoções vulneráveis a adoecimentos como depressão e ansiedade excessiva. Quanto menos esperançosos nós somos, mais vulneráveis emocionalmente nos tornamos. O existencialismo é um ataque articulado as nossas emoções e somente uma esperança firme nos fará olhar além das cortinas da vida e ver que o melhor está por vir. Somos chamados a desenvolver corações esperançosos, com os olhos em Cristo, relembrando nossa alma que as lutas do presente não se comparam com a glória do futuro. O melhor ainda não foi instaurado (1 Co 15.19).

Apesar de missionários, somos fruto dessa geração existencialista. Nossa cultura formatou nosso olhar para o presente, centrou nossos desejos nos bens desta terra, esforça-se para nos fazer esquecer que somos peregrinos, viajantes. Pouco pregamos sobre o porvir, talvez porque pouco pensamos no lar celestial, nosso verdadeiro destino. O mal dos séculos se configura em adoecimentos emocionais e o campo missionário não está isento deles, pelo contrário, nunca se ouviu falar de tantos retornos prematuros por questões relacionadas. Somos vulneráveis às crises pessoais e interpessoais, e geralmente nos fragilizamos diante delas ao invés de enfrenta-las pela graça que nos foi dada. Precisamos colocar nossos olhos mais no Cordeiro que há de vir e menos em nós mesmos, mais no Rei que não tardará e menos nas pessoas que certamente falharão, mais na glória que há de ser revelada e menos nas trivialidades da jornada. Precisamos de mais esperança, para sermos mais bem resolvidos.

“Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor” (1 Co 13.13).

Rev. Cácio Silva

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