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Uns vão, outros ficam… mas há uma só missão

Há pouco tempo ouvi, em uma pregação, um pastor relatar sobre um trabalho missionário no leste europeu e concluir dizendo: “ainda bem que Deus tem os vocacionados dele pra lá e não me chamou para trabalhar em um lugar como esse!” Também é comum ouvir frases como: “os missionários vão para os campos, enquanto nós ficamos aqui na retaguarda, orando e contribuindo”.

Sem dúvida, há certo conceito teológico por trás, que parece haver se solidificado em nosso meio. Um conceito que, gostando ou não, forma o “pano de fundo bíblico” que norteia grande parte das nossas igrejas, nossas lideranças, nossos irmãos e até nossos missionários. O conceito em jogo é que os missionários vão para os campos (normalmente lugares longínquos, primitivos, dolorosos ou exóticos) cumprir com sua vocação (entendida ainda pela grande maioria como sendo o abandono de seus familiares, de seu trabalho, de seu salário… de sua vida) e fazer a obra missionária (a verdadeira obra missionária está paulatinamente deixando de ser entendida como “transcultural” para ser considerada como a “plantação de grandes igrejas em nossos bairros”), enquanto nós continuamos aqui, e daqui mantemos o trabalho missionário com nossas orações e contribuições.

Diante desse conceito popular corremos o risco de acreditar que somente os vocacionados que vão para campos são os verdadeiros missionários. Mas ao olhar para o texto bíblico notamos que é salutar essa dinâmica em que uns se transferem para outras regiões e assumem ministérios específicos, enquanto outros continuam em sua terra desenvolvendo seus ministérios de sempre. Em linhas gerais, essa dinâmica missionária da igreja aponta claramente para a existência de uma só missão na qual estamos todos envolvidos e participando.

Paulo e seus companheiros foram recebidos com alegria pelos irmãos (At 21.17)

A felicidade demonstrada pelos irmãos de Jerusalém ao receberem Paulo e sua equipe em seu meio, em sua igreja e em suas casas indica o grau de envolvimento desses irmãos com os missionários recém-chegados e com a obra que estavam realizando. Essa alegria foi traduzida em hospitalidade, em cuidados, em descanso, em comida quentinha e em aconchego. Era uma forma concreta de envolvimento gracioso e de realizarem, eles mesmos, parte da vocação recebida de Deus. Isso nos lembra as sábias palavras de João: “é, pois, nosso dever receber com hospitalidade irmãos como esses, para que nos tornemos cooperadores em favor da verdade” (3 Jo 8). Portanto, há uma só missão!

Enquanto Paulo e sua equipe se dedicavam a evangelizar os gentios, a igreja em Jerusalém se ocupava de evangelizar os judeus (At 21.19-20)

Paulo relatou seu trabalho entre os gentios e o conselho da igreja de Jerusalém relatou seu trabalho entre os judeus daquela cidade. Uns precisaram deixar suas pátrias para evangelizar, enquanto outros não. Eram relatos de ministérios missionários específicos, com alvos diferentes, com métodos de abordagens próprios, com desafios teológicos, filosóficos e sociais particulares. Quanto a isso, é bom notar que o relato que inclui as maiores dificuldades (21.20-22) foi o do conselho de Jerusalém, justamente os que estavam evangelizando seus vizinhos em seu próprio bairro. O importante é ver que ambos, os que foram enviados a terras estranhas e os que ficaram, estavam profundamente comprometidos com a evangelização de todos os seres humanos e não consideravam como superior nem o seu trabalho, nem o dos demais. Portanto, há uma só missão!

Paulo e seus companheiros reconheciam que, como enviados com um ministério específico à outra parte da humanidade, deveriam prestar um relatório à igreja de Jerusalém (At 21.18-19)

O texto é muito claro ao mostrar que Paulo se reuniu com Tiago e todos os presbíteros da igreja “e relatou minuciosamente (um por um) o que Deus havia feito entre os gentios por meio do seu ministério”. O apóstolo reconheceu a necessidade de prestar contas do seu trabalho de forma minuciosa e completa, sem máscaras, triunfalismos ou apelos emotivos. Ele descreveu a ação de Deus. Paulo e seus companheiros somente puderam agir dessa forma por reconhecerem que o conselho da igreja de Jerusalém e demais irmãos daquela igreja faziam, como ele e com ele, parte da ação de Deus no mundo e estavam comprometidos com essa ação. Além disso, vale à pena observar que a equipe paulina também reconhecia, respeitava e honrava seu próprio vínculo eclesial com a igreja enviadora. Portanto, há uma só missão!

Paulo e sua equipe seguiram a orientação dada pelo concílio (At 21.23-26)

A liderança da igreja precisava orientar o procedimento de Paulo, uma vez que os judeus convertidos ainda se mantinham ligados à observância dos preceitos do judaísmo e se enfureceriam ao saberem que Paulo estava em Jerusalém, posto que Paulo ensinava aos gentios que não era necessário seguir o judaísmo e sim guardar o que o concílio de Jerusalém havia determinado (21.25; 15.22-35). Por um lado, o conselho orientou o apóstolo porque sabia muito bem qual seria a reação desses judeus. Por outro lado, notamos que o apóstolo seguiu as instruções do conselho cumprindo alguns votos do judaísmo (algo que ele supostamente já havia deixado). Não julgou ser todo-suficiente como apóstolo e missionário bem sucedido para “passar de largo” da decisão do concílio. Antes, reconhecia que Deus o estava guiando através da decisão da igreja em missão (não os considerava como “os que estão confortavelmente atrás de uma mesa”) e, dessa forma, demonstra-nos seu caráter enérgico e decidido sob o controle do Espírito Santo. Aliás, essa não foi a primeira vez que Paulo recebeu e seguiu instruções de um conselho. Vemos a mesma atitude em 15.36-41 no caso da desavença com Barnabé.

Portanto, há uma só missão! Uns vão, outros ficam… Mas há uma só missão! Creio que essa é uma lição que precisamos aprender uma e outra vez ao longo da nossa jornada missionária como igreja de Deus militando no mundo. É preciso que todos (os que vão e os que ficam) nos vejamos como verdadeiros enviados de Deus à humanidade (quem quer que seja e onde esteja). A todos nós Deus vocacionou e a igreja é a comunidade dos enviados de Cristo ao mundo. Podemos tomar mais e mais as mãos uns dos outros e aprender, dia a dia, a caminharmos juntos como um só povo com uma só missão!

Rev. Carlos del Pino

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