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Uma vida livre através da Palavra!

Precisamos compreender as raízes da crise que afeta a sociedade moderna em geral e, especificamente, a sociedade Europeia. Essa compreensão é positiva, pois de um lado permite identificar melhor os desmandos causados pela falta de ética e, de outro lado, suscita uma reação salutar que explicita valores éticos a serem buscados na atividade política, econômica, social, familiar e, mesmo sem grandes expressões, na vida da Igreja francesa, que também se identificou tremendamente com a cultura moderna e pós-moderna. Na verdade, aqui no Velho Continente, vive-se uma cultura pós-cristã, onde os desafios são ainda maiores.

Quando pensamos na visão que Calvino tinha acerca da Igreja de Cristo, e de seu papel na sociedade, entendemos que significava para o reformador genebrino uma ação da Igreja capaz de promover a dignidade humana e que, pela ação regeneradora do Espírito Santo, o homem recebe o dom de Jesus Cristo, é inserido no Corpo místico de Cristo, mas também é devolvido ao mundo, como novo homem, a fim de cumprir sua vocação, proclamando o evangelho do Reino. Para Calvino não existia separação entre a fé e a prática cristã. Sua visão era integral acerca da vida cristã. Depreendemos daí sua importância para os nossos dias. Para o reformador a nova vida em Jesus Cristo é explicitada na vida social e cultural. A vida é única como espelho da glória de Deus em Sua própria criação.

Assim, comemorar os 503 anos da Reforma, deflagrada no dia 31 de outubro de 1517 por Martinho Lutero, significa elevar a Deus nossa profunda gratidão pelo que Ele fez através de homens fiéis que, movidos pelo Espírito Santo, conduziram a Igreja de Cristo de volta à centralidade das Escrituras, não sem lutas, sangue, dedicação, lágrimas e muito serviço ao Reino.

Logo após a Reforma, foi cunhada a célebre frase Ecclesia reformata et semper reformanda est (A igreja reformada está sempre se reformando) e essa precisa ser a tônica da Igreja atual, frente a tantos e urgentes desafios que exigem uma postura cada vez mais adequada aos novos tempos e, ao mesmo tempo, sem abrir mão de seus pressupostos bíblico-teológicos.

No entanto, há certo paradoxo protestante, ou seja, a Reforma do Século XVI nasceu com a proposta de contestação, de mudanças radicais nas bases da fé cristã, apresentando-se como revolucionária e libertadora, como uma via alternativa, o que de fato aconteceu, mas, com o passar do tempo, sofre com o perigo sempre iminente de um tradicionalismo rígido, extremamente conservador, paralisante, de uma vida meramente religiosa, de uma mimética confessional, completamente desassociada de uma vida cristã intramundana, onde a reforma da fé reforma a vida pessoal, comunitária, social, política, moral, ética e educacional.

A Reforma Protestante produziu, então, alguns pressupostos teológicos que devem continuar norteando a caminhada da Igreja na história. São os chamados pilares da Reforma através dos cinco Solas. Nessa pequena reflexão, veremos dois deles:

A Supremacia das Escrituras

‘Sola Scriptura’ (Somente a Escritura): a Palavra de Deus tornou-se o referencial da existência humana. A Bíblia estava esquecida. Houve uma volta à Palavra. Antes, a tradição superava as Escrituras, agora não podia ser mais assim para os reformadores. O povo passou a ter acesso à leitura da Bíblia.

Em outras palavras, a poderosa obra do Espírito Santo na dinâmica da vida cristã pessoal jamais pode estar separada das Escrituras. Cremos que à parte da Palavra de Deus nunca teríamos conhecimento da obra redentora de Deus em Jesus Cristo, manifestação inequívoca de sua maravilhosa graça. A Escritura Sagrada é o critério de nossa experiência espiritual e não a experiência desassociada da Palavra.

Somente a Escritura é fonte da revelação divina e escrita de Deus, suficientemente capaz de transformar o coração do homem, empedernido pelo pecado. Ela é suficiente para compreensão de toda a obra da redenção e de um viver cristão na presença de Deus, pela ação do Espírito que a inspirou e a aplica em nossos corações.

Portanto, uma igreja pautada na Palavra de Deus há de ser a diferença na sociedade que a cerca e há de promover as transformações necessárias no mundo, pela vida e pelo anúncio do Evangelho, da Palavra genuína de Deus. Jamais poderemos considerar o Evangelho e seu anúncio como sendo algo a atingir partes do ser humano. Ao contrário, a liberdade promovida pelo Evangelho é profunda e integral. Profunda porque liberta o homem de si mesmo, de seu egoísmo, de sua auto-independência e de toda sorte de superstições. A sociedade europeia tem rejeitado o cristianismo e o seu Deus, mas continua extremamente supersticiosa e mística. Integral porque liberta o homem para a entrega radical de sua vida a Cristo, para o outro, para o amor-serviço, para um novo relacionamento com o Criador e a criação, alterando seu ethos existencial. Essa liberdade profunda e integral é operada pelo Espírito Santo, pois no espaço da ação do Espírito a liberdade se concretiza (2 Co 3.17).

Assim, a afirmação da fé cristã de que Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos e de que sua morte na cruz tornou-se o único e definitivo sacrifício para a obra da redenção humana é, na verdade, a afirmação fundante da fé, daquilo que é absolutamente essencial à nossa salvação. Jesus Cristo é o único mediador entre Deus e os homens, tornando-se, segundo a teologia bíblica, nossa reconciliação. Na linguagem paulina, “ele é a nossa paz” (Ef 2.14).

A Supremacia de Cristo

‘Solus Christus’ (Somente Cristo): em outras palavras, segundo a linguagem reformada, trata-se da salvação somente em Cristo, que tem início e fim na pessoa e na obra expiatória de Jesus Cristo na cruz, sendo Ele o cordeiro sem pecado que, pela sua morte, outorgou-nos a justificação pela fé.

Esse é o genuíno evangelho que salva e transforma a vida do pecador que está separado de Deus, morto em seu pecado (Ef 2. 1,5,11). Alcançados e transformados por esse evangelho, somos desafiados a vivê-lo intensamente para a glória de Deus, na ação e no poder do Espírito Santo, que aplica a obra redentora em nossas vidas, dando-nos uma nova vida (II Cor. 5.17).

Por outro lado, o evangelho que nos transforma precisa ser anunciado, proclamado. Somos o povo que Deus constituiu para proclamar o Cristo vivo e ressurreto. Portanto, a missão da Igreja nasce da própria missão de Deus. Sendo assim, ela é chamada e enviada por Deus ao mundo, motivo pelo qual ela é apostólica.

Assim, a Igreja não foi constituída apenas para cantar belos hinos, ouvir corais e belas mensagens, assentar-se em bancos de belos templos. Não, a Igreja foi chamada para envolver-se com os homens, estejam onde estiverem, visando a alcançá-los pelo evangelho.

Bom é saber que a Igreja é o resultado e ao mesmo tempo uma participante da missão de Deus. Nós somos ao mesmo tempo uma consequência e uma colaboradora com Deus no processo de estabelecer o Seu Reino entre os homens. Assim, a missão da Igreja é essencialmente a sua participação no processo redentivo que Deus está executando na História, e a tarefa precípua da Igreja, a proclamação das Boas Novas, só terá verdadeiro significado e resultado quando realizada por cristãos que tiveram um encontro verdadeiro com Jesus de Nazaré. Em outras palavras, uma igreja missionária é aquela que proclama e compartilha a ação de Deus em sua vida.

A nossa missão enquanto Igreja do Senhor Jesus é testemunhar e apresentar a salvação eterna através daquele que é o único capaz de salvar o homem perdido – Jesus Cristo. E isso pela graça, mediante a fé. É tarefa de todos os que dela fazem parte viver o evangelho e proclamar a Cristo.

Nesse sentido, a natureza missionária da Igreja é redescoberta e praticada no poder do Espírito “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo. 8.32). Jesus Cristo é o Logos encarnado, a Palavra Viva de Deus que comunica vida e liberdade no poder do Espírito para o cumprimento da missão de cada um e de seu povo.

Marcos Azevedo

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