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O Pequeno Príncipe, o tempo e a missão

Há alguns meses, fui com minha esposa Kelly ao cinema assistir uma adaptação cinematográfica de um dos grandes clássicos infantis do século passado, a saber “O Pequeno Príncipe”. Logo no início do filme, tivemos a grata surpresa de perceber que não se focava somente na famosa estória criada por Antoine de Saint-Exupéry, mas buscava aplicar as verdades encontradas no livro a nossa sociedade hodierna.

O filme se foca na estória de uma pequena menina, que vive uma vida regrada pelas demandas temporais da sociedade a sua volta, até que a mesma se depara com um vizinho que parece ir de encontro a todos os pilares da sociedade que o cerca (o vizinho é, no filme, uma personificação do próprio Exupéry). Uma das cenas que mais chamou minha atenção foi quando a mãe da menina afixa na sala de sua nova casa um quadro com todos os afazeres da pequenina para os próximos 50 anos. No grande quadro, estava delimitado o tempo para escovar os dentes, ou até mesmo o mínimo tempo destinado à amizade; bem como as atividades consideradas mais importantes que a levariam a se tornar uma grande profissional. Ao olhar para aquela cena lembrei-me da vida missionária.

Vivemos em uma sociedade moldada por expectativas temporais. O homem pós-moderno vive, por vezes, afogado em metas e prazos irreais, e puramente existenciais. Tal “estilo de vida” tem, infelizmente, alcançado as igrejas e consequentemente a obra missionária. As pressões temporais de nossa sociedade têm muitas vezes sufocado o nosso anseio pela eternidade, e nos feito pensar mais nas coisas de nossa vida terrena do que “nas coisas do alto”. Tal problemática me trouxe à mente o texto bíblico de Atos 1. 6-8, em que está escrito:

Aqueles, pois, que se haviam reunido perguntaram-lhe, dizendo: Senhor, restaurarás tu neste tempo o reino a Israel? E disse-lhes: Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder. Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra.

Mesmo tendo vivido há cerca de dois mil anos, percebemos que até os discípulos de Cristo não estavam livres das demandas temporais. A grande inquietação deles após a ressurreição de seu amado mestre era se havia chegado a hora dele “restaurar o reino a Israel”. Na resposta dada por Cristo a essa indagação, encontramos um princípio precioso para todos que caminham na estrada missionária em meio a uma sociedade extremamente temporal.

Jesus responde que não é competência de seus discípulos saber de “tempos ou estações”, pois tais temas são competência exclusiva do Pai, mas que a eles competia a tarefa de serem testemunhas “tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra”. Por vezes, queremos que a nossa vida em missão seja como aquele grande quadro afixado na casa da pequenina protagonista do Pequeno Príncipe, mas como bem sabemos não estamos no controle pleno de nossas vidas.

Não afirmo com isso que não devemos planejar a nossa caminhada ministerial (pois de fato aprendemos isso claramente nas escrituras – ex. Lc. 14.28-30), mas que devemos sempre nos lembrar de que os “tempos e estações” pertencem ao Pai, e que a nós pertence sermos testemunhas de sua graça e evangelho a todas as nações.

Creio que tal promessa e lembrança é uma verdadeira fonte de renovo em meio a um cristianismo cada vez mais baseado em metas e objetivos temporais, objetivos esses, geralmente, fruto de nossos próprios anseios e ambições. Da mesma forma como a vida da pequenina protagonista do filme se transforma quando ela começa a se relacionar com o seu estranho vizinho, e quando ela começa a ler sobre um pequeno príncipe que amava uma flor, creio que a nossa vida em missão se transformará quando passarmos a nos relacionar mais com o Senhor da missão e quando nos maravilharmos com a história de um rei “que se fez carne e habitou entre nós”.

O próprio Antoine de Saint-Exupéry certa vez disse que “Conhecer não é demonstrar nem explicar, mas sim aceder à visão”. Não somos senhores do tempo, mas servos daquele que afixou os tempos antes da eternidade. Que possamos nos preocupar mais em sermos testemunhas d’Ele em todas as nações, deixando em suas mãos “os tempos e estações”. Que possamos provar que o conhecemos, acedendo (aquiescendo-nos) a sua santa vontade.

Gabriel Neubarth

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