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O Continente Secularizado

“Os israelitas tinham de lidar com as nações idólatras ao seu redor; a igreja primitiva enfrentou a cultura Greco-romana; e agora enfrentamos uma sociedade profundamente secularizada” (WALSH, Brian & MIDDLETON, Richard. A Visão Transformadora. São Paulo: Cultura Cristã, 2010).

Exercendo o ministério em Europa, é comum tanto falar como ouvir a frase: “A Europa é totalmente secularizada”. Mas o que isso significa exatamente? Como plantar igrejas em um contexto assim? Espero esclarecer um pouco a questão, estimulando-os a seguir com a reflexão sobre a secularização e seus desafios para a plantação de Igrejas. Obviamente não pretendo esgotar o assunto, mas apenas introduzi-lo dando umas “pinceladas” iniciais.

BREVE HISTÓRICO DO SECULARISMO

O filósofo Platão (428-347 a.C) ensinou que a realidade era composta por dois reinos ou pavimentos: o das Formas e o da Matéria. Entendeu a Matéria como pré-existente/eterna e que o “criador” (seria uma espécie de deus-assistente, de nenhuma forma identificado com a Trindade) não conseguiu impor a forma racional sobre ela. Para ele, a Forma é eterna, racional e perfeita, enquanto a Matéria é o fluxo eterno sem forma. Seu ponto de vista pode ser resumido assim:

FORMA

Razão eterna / espiritual

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MATERIA

Eterno Fluxo Sem Forma / Material

A vida que vale a pena é aquela que enfatiza a aproximação ao primeiro pavimento, segundo Platão. O reino material (segundo pavimento) era menos valioso. Através de exercícios ascéticos, o filósofo poderia se libertar do mundo material e se aproximar do domínio que realmente importa, o domínio das Formas.

Agostinho de Hipona (354-430) foi um teólogo excepcional e trouxe muitos benefícios ao cristianismo. Não obstante, trouxe consigo também a bagagem platônica e enfatizou a vida contemplativa como o ideal cristão. O verdadeiro crente deveria, segundo ele, se retirar para mosteiros e conventos e viver o resto de seus dias em exercícios de reclusão, oração e ascetismo, com o objetivo de se aproximar de Deus, que estaria no reino das Formas em uma versão cristianizada dos ensinamentos de Platão. A partir daqui o trabalho manual foi visto como menos valioso que a oração e a meditação. O casamento foi relegado a um “mal necessário” e o celibato se tornou o grande objetivo dos crentes.

Aristóteles (384-322 a.C) havia formulado uma visão de mundo pagã abrangente com temas como política, ética, filosofia e estética. A redescoberta da sua obra forçou os teólogos a afirmarem que havia uma “dupla verdade” em que as duas áreas eram mutuamente contraditórias. Aristóteles ensinou que o mundo é eterno; a Bíblia diz que ele foi criado; segundo os teólogos medievais, ambas as afirmações estão corretas.

Tomás de Aquino (1225-1274) tentou refutar a teoria aristotélica e, em seu esforço para “cristianizar” os ensinamentos de Aristóteles, acabou mudando as terminologias, mantendo a ideia dos dois andares agora denominados Graça e Natureza:

GRAÇA, o nível superior:

Deus, céu; coisas celestiais / alma humana.

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NATUREZA, o nível mais baixo (a forma ideal e perfeita de todas as coisas):

A criação; terra / corpo humano

O problema é que a natureza de Aquino é imanente ao mundo e pode se governar por meio de leis fixas sem a necessidade de Deus. Para piorar a situação, Aquino entendeu que a “queda” não havia afetado o pavimento inferior. A natureza não sofreu danos e a mente humana permaneceu perfeita em sua tentativa de construir e desenvolver a vida social. A redenção seria apenas para a parte de cima; o Evangelho estava restrito ao reino da Graça; no domínio de baixo (ciência, filosofia, política, artes, etc.), a razão humana continuou a trabalhar por livre e espontânea vontade. Nas palavras de Francis Schaeffer, a Natureza “engoliu” a Graça, fazendo seu próprio voo independente, autônomo e sem limites.

Quando os escolásticos surgiram, aumentaram a distância entre essas duas partes, afirmando que o ser humano tem dois fins diferentes, o terreno e o divino. As áreas estavam se afastando e criando uma lacuna entre elas, o que mais tarde se mostrou trágico e prejudicial à fé cristã no Ocidente.

Dividido em dois, o ser humano usaria a área da Graça para coisas espirituais, como missas, procissões, rituais; a parte de baixo, Natureza, não tinha nada a ver com Graça; eram partes diferentes e intocáveis. Acreditava-se que o ser humano poderia agora servir à Igreja e ao Estado sem prejuízo de ambas instituições.

Na prática, o clero cuidava do primeiro pavimento, buscando a perfeição espiritual, enquanto os leigos tinham que cuidar de tarefas “mundanas”, como trabalho, lazer, política, etc. O clero então adquiriu o “poder” de garantir a entrada no céu dos paroquianos que participavam dos rituais. Mas esse clero não tinha nada ou quase nada a dizer sobre a vida prática; cada vez mais, foi abandonada a perspectiva de criar uma teologia do trabalho, ou uma teologia da criação; todas as áreas da vida, exceto a eclesiástica, foram entregues ao pavimento inferior, a “Natureza”; assim surgiu a falácia de que todas essas facetas da vida humana são “seculares” ou “laicas”; na verdade o que isso quer dizer que essas áreas “engoliram” o pavimento superior (Graça) e se tornaram autônomas e as demais cosmovisões (ateísmo, marxismo, naturalismo, entre outros) passaram a definir como a vida deve ser vivida. O secularismo estava começando a ensinar sua faceta mais violenta. O cristão medieval vivia uma esquizofrenia, esmagada por dois mundos diferentes que não se misturavam. O ser humano ocidental de hoje vive uma realidade ainda pior, pois foi ensinado a ignorar completamente o pavimento superior. Está mergulhado profundamente na cosmovisão secular e ignora as verdades básicas do Evangelho, como a realidade de Deus. Lembremos que os pavimentos são intocáveis:

GRAÇA (teologia, fé, Bíblia, igreja)

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Natureza (Razão terrena; fim perfeito de todas as coisas)

Pouco a pouco, o reino da Graça passou a ser visto como irrelevante, resumindo-se à repetição de rituais para assegurar ao paroquiano sua calma passagem à eternidade. A Razão / Racionalismo assumiu áreas como ciência, economia e o próprio Estado. As verdades cristãs foram relegadas ao campo do supérfluo e desnecessário. O Racionalismo tornou-se o depósito de verdades autonomamente conhecidas sem o aval divino.

O Iluminismo, em seu princípio básico de destronar toda e qualquer autoridade externa, veio dar outro duro golpe ao pavimento superior; se antes “religião” era o padrão de comparação para descobrir o que é bom ou ruim, agora a “deusa Razão” havia mudado o jogo e chegou a julgar a própria “religião”. Os princípios religiosos eram apenas tolerados se estivessem de acordo com os princípios racionalistas (por isso surgiu a teologia liberal). Afinal, o Iluminismo escolheu a ciência como sua “rainha” como a única e exclusiva fonte de conhecimento genuíno. O pavimento de baixo, Natureza, tornou-se a única verdade. A Razão foi aceita como o critério único, definitivo e irrefutável como verdade para entender o mundo. Em realidade, passou a ser adorada como um ídolo. Quando tentei evangelizar um espanhol recentemente, ouvi a afirmação: “eu até creio em Deus, mas a ciência demonstrou que Ele é desnecessário para vida humana”. Evidentemente essa afirmação revela essa lavagem cerebral que a maioria dos europeus sofrem nos colégios, onde a “teoria da evolução” é ensinada como a única possibilidade de entender o universo e a vida.

Vivemos essa realidade espiritual muito de perto. Pregamos para pessoas que estão muito acostumadas a viver presos nesses dois pavimentos. Penso que nossa pregação deve ser primeiramente anunciar a realidade de Deus. Um excelente exemplo está em Atos 17.16-34, quando Paulo pregou o Evangelho em Atenas. Sua ênfase foi: “O Deus que criou o mundo e todas as coisas que nele existem, sendo o Senhor do céu e da terra” – 17.24; A própria humanidade do ser humano tem Deus como fonte: “E de um sangue ele fez toda a linhagem dos homens, de modo que eles habitam toda a face da terra” – 17,26; sua mensagem começa com o anúncio da realidade de Deus e que, como sua criação, devemos a Ele obediência, adoração e submissão. Deus tem direitos sobre os seres humanos, Ele é o criador; deixa claro que nossa vida deve ser integralmente voltada para Ele sem os enganos dos dois pavimentos. Ou seja, somos feitos por Ele, pertencemos a Ele e dependemos Dele. Só então ele anuncia o pecado e a redenção em Jesus Cristo. Esse ponto é essencial no “pré-evangelismo”; a partir da realidade de Deus, é essencial desfazer o sofisma da dicotomia ocidental de que as coisas “espirituais” são restritas ao pavimento superior.

Biblicamente não há pavimentos, tudo é de Deus em Cristo: “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. ” Colossenses 1.15-17. “Nem um único espaço do nosso mundo mental pode ser hermeticamente fechado em relação ao resto, e não há um centímetro quadrado em todos os domínios da existência humana sobre os quais Cristo, que é soberano sobre todos, não diga: ele é meu! ”, afirmou Abraham Kuyper.

É precisamente por esse motivo que somos chamados a voltar os olhos para as Escrituras com esperança e encontrar ajuda para uma ocasião oportuna. A mensagem cristã começa com essa premissa: DEUS É REAL! Essa mensagem trouxe significado e esperança aos europeus do primeiro século. O Ap. Paulo disse aos europeus do século I quem é Deus e ensinou-lhes suas regras e leis para abençoar a vida humana e impedir sua destruição. Ele anunciou o que Deus exige dos seres humanos, além de enfatizar que, porque todos somos criados por Ele, devemos obediência, respeito, reverência e adoração. O início da mensagem cristã é “Deus, no princípio, criou os céus e a terra”.

Deus traz sentido à existência humana e possibilita uma visão integral da vida. A fé em Deus durante séculos impulsionou a economia da Europa, além de produzir temor e uma alta concepção da vida humana e animal. Os bárbaros invasores foram transformados em pacíficos agricultores e mudaram seu modo de vida, abandonando a guerra e o roubo e indo trabalhar na terra; universidades foram criadas; as cidades floresceram e cresceram sob essa premissa. Foi assim que a sociedade europeia surgiu. Houve um grande desenvolvimento de cidades e sindicatos surgiram para proteger os interesses dos artesãos e, pouco a pouco, foi criando espaços ideais para um governo representativo. Mais tarde, a Reforma Protestante produziu um avanço espetacular na formação cultural, possibilitando democracias livres, revitalizando a Europa e libertando-a do jugo das monarquias absolutistas e do jugo religioso opressivo.

Que voltemos nossos olhos para a premissa que moldou a Europa e a tornou grande: a fé em Deus. Que Deus não seja “desconhecido” para nós como Ele era para os filósofos gregos que se viam como profundos conhecedores dos mistérios da vida humana. Os europeus secularizados do século XXI não devem ser privados de ouvirem sobre Deus e sua maior demonstração de amor à humanidade: o envio de Jesus Cristo, seu Filho eterno, para nos libertar, através da fé e arrependimento, do presente e eterno desespero.

O secularismo é uma realidade que deve ser enfrentada com o anúncio abundante da realidade do ser de Deus. Esse anúncio parece ser primordial e inicial, sendo que só então a realidade do pecado e da salvação possui sentido. A Igreja Presbiteriana em Barcelona nasce comprometida com essa realidade.

Pr Janio Ap. Ciritelli
www.ipbarcelona.com

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