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Na medida de Deus

por Rev. Ronaldo Lidório | ronaldo.lidorio@terra.com.br

 

Vivemos em uma geração de pessoas cansadas, desanimadas, enfrentando frequentes crises pessoais ou de trabalho. O esgotamento, estresse e depressão ganharam dimensões epidêmicas.

O Instituto Francis Shaeffer de Desenvolvimento de Liderança Eclesiástica aponta que, nos Estados Unidos, cerca de 70% dos pastores e líderes cristãos enfrentam ou já enfrentaram algum tipo de esgotamento ao longo da vida. A OMS (Organização Mundial de Saúde) indica que 350 milhões de pessoas sofrem hoje de depressão em todo o mundo e, somente no Brasil, são mais de 30 milhões.

Há diversos promotores desse adoecimento. Alguns são biológicos, outros sociais e ainda outros pessoais. Dentre os biológicos estão a carga genética, o resultado de uma alimentação desequilibrada e o sedentarismo.

Os fatores sociais são variados e destaco a crescente demanda de produção em um ambiente competitivo e frenético, orientado por metas insuperáveis e gerando uma vida sem pausas. Dentre os fatores pessoais estão as atitudes do coração.

Há diversas formas de se abordar esse tema. A partir de uma perspectiva psicológica (entender o que se passa na alma humana), antropológica (estudar os efeitos da sociedade sobre o individuo) ou teológica (o que a Palavra nos fala sobre a nossa relação com Deus, com os outros, com o nosso próprio coração e com o trabalho).

Nossa reflexão será teológica e para isso escolhi o texto em que Paulo dá orientações ao jovem Timóteo em sua segunda carta: II Timóteo 2.15. Paulo já estava idoso, aprisionado em Roma pela segunda vez. Desta feita não se encontrava em uma prisão domiciliar, mas em um cubículo escuro, úmido e frio. Aguardava a sua morte. Escreve, assim, essa carta para o seu filho na fé, amigo e discípulo Timóteo. Seu objetivo é orientá-lo sobre como se relacionar com o Evangelho. Segundo John Stott, essa carta possui quatro exortações principais: guarda o Evangelho, sofre pelo Evangelho, permanece no Evangelho e prega o Evangelho.

No capitulo 2, verso 15, ele escreve: “Procure apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade”. Normalmente nossos olhos repousam sobre a qualificação da apresentação (apresente-se aprovado), mas a ênfase textual está sobre o destino da apresentação: apresente-se a Deus. É a Deus que devemos nos apresentar. É a Ele que prestaremos contas. E perante os Seus olhos que seremos aprovados ou reprovados. Paulo trata por outro ângulo aquilo que deixa bem claro em suas cartas: nossa identidade não é definida pelo que fazemos, mas sim pela nossa relação com Deus. Não é o nosso trabalho, títulos, cargos, funções, realizações ou reputação que nos definem, mas sim a nossa real relação com o Eterno.

Em Romanos 1.1 Paulo se apresenta como “servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo”, fazendo uma distinção entre quem ele é (servo de Cristo) e o que ele faz (o apostolado). Sua identidade pessoal se dá na relação com Cristo, sendo ele servo e Cristo o Mestre. Somos definidos a partir de nosso relacionamento com Jesus.

Frequentemente alinhamos nossa vida com base em duas fontes de expectativa: o que outros esperam de nós e o que noó esperamos de nós mesmos. E assim, corremos atrás do vento para agradar, receber um elogio, chegar em primeiro lugar, conseguir um destaque, adquirir fama nas redes sociais ou ter o nome  mencionado por alguém importante.

A Palavra nos lança outra proposta: viver de acordo com as expectativas de Deus. E para isso a pergunta central que deve orientar a nossa vida é: o que Deus espera de mim? A proposta do velho Paulo para o jovem Timóteo é justamente esta: apresente-se a Deus aprovado. O termo “aprovado”, em grego dokimos, apontava para pessoas íntegras, especialmente no comércio. Falsários comumente reduziam as bordas das moedas, de forma quase imperceptível, utilizando o metal restante para outros fins. As moedas adulteradas eram usadas livremente no comércio, sendo de difícil identificação. Havia, porém, homens que utilizavam apenas as moedas originais e eram chamados de dokimos – aprovados. O termo era também usado para aqueles que vendiam grãos. Em muitos mercados, os grãos eram vendidos por cabaça, um recipiente que indicaria a medida correta a ser paga. Alguns mercadores possuíam uma técnica que evitava encher totalmente a cabaça de grãos, enganando os desprevenidos. Havia, entretanto, mercadores que enchiam totalmente a cabaça até deixá-la transbordar e, com uma régua de madeira, a nivelava na frente do cliente. Vendiam a medida certa e eram conhecidos como dokimos – aprovados. Entendo que o termo aprovado é usado com dois significados próximos: de fidelidade e de medida. A fidelidade em todas as coisas, mesmo naquelas que não são conhecidas por outros; e também a medida certa ao apresentar o trabalho a Deus: nem mais, nem menos.

Há dois grandes riscos quanto a medida que trabalhamos: o excesso e a negligencia. O excesso se da quando fazemos além do que deveríamos, especialmente quando impulsionados por motivações pecaminosas como o orgulho, o desejo de ser superior, se destacar, chegar sempre em primeiro lugar e impressionar a outros. A negligencia se da quando fazemos aquém do que deveríamos, normalmente motivados pela preguiça ou falta de disposição de sair da nossa zona de conforto. Se o orgulho e o pecado que orienta o excesso, o egoísmo é normalmente o pecado que orienta a negligencia. Procrastinar o que é importante, fazer de forma relaxada ou encontrar subterfúgios para passar para outros aquilo que é de nossa responsabilidade. Tanto o excesso quanto a negligencia são medidas equivocadas. A medida certa é a medida de Deus.

Paulo encoraja Timóteo a ser um obreiro que se apresenta a Deus (e a Ele que prestaremos conta) e que o faz de forma aprovada (na medida certa). E também a não ter do que se envergonhar, manejando bem a palavra da verdade. Manejar “bem” significa “cortar reto” e parece-me que se aplica tanto aquilo que se fala (a pregação da verdade de Deus) quanto àquilo que se vive. Esse manejo talvez esteja mais ligado à integridade do que à habilidade. Timóteo, assim, não teria motivos de vergonha porque fala o que a Palavra fala e aprende aquilo que a Palavra ensina. Alguém que é fiel no ensino bíblico e cujo ensino transforma a própria vida. Que Deus nos ajude a sermos aprovados: nem mais, nem menos. 

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