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Missionário que Volta pra Casa

No último ano li, mais de uma vez, em redes sociais diferentes, a história de um casal de missionários americanos que retornava para casa após 50 anos servindo a Deus na África. Durante a viagem de navio, eles imaginavam como seriam acolhidos e que tipos de honra receberiam de seus familiares e amigos. Ao se aproximarem do porto, viram muitas bandeiras, banda, fanfarra e uma festa preparada. Então pensaram: “Maravilha! Eles estão prontos para nos receber de volta! Que alegria”! Porém, quando saíram do navio, depois de um bom tempo, já que estavam viajando na terceira classe, viram apenas os papéis coloridos espalhados pelo chão e não havia mais a banda nem as pessoas. Diante daquele silêncio, comentaram: “A festa deve ter sido para aqueles homens de terno no navio”. Então foram para casa, cansados e frustrados, pois não havia ninguém para recebê-los e nenhuma recompensa a ser oferecida. O esposo ficou tão revoltado que saiu batendo a porta e disse a sua esposa: “Eu vou dar uma volta, pergunta aí pro seu Deus se é isso que Ele tem para nós depois de 50 anos de ministério”! Ele andou… andou… andou… e, ao voltar, encontrou a esposa mexendo em algumas coisas na pia da cozinha. Ele entrou e indagou a ela, em tom de deboche: “E então? Falou com o seu Deus se é isso que Ele tem para nos dar, depois de renunciarmos 50 anos da nossa vida dedicada ao ministério”? E a mulher, sem se virar, simplesmente disse: “Falei sim”. Ele retrucou: “Ah é? E então, o que foi que Ele disse”? Ela respondeu: “Deus disse que nós ainda não chegamos em casa”.

Essa história aponta para diferentes lições: nosso lar é celeste e não terreno; as instituições enviadoras não cuidam adequadamente de seus missionários; um missionário pode se considerar especial e requerer especial atenção de Deus e dos irmãos e irmãs; um missionário, mesmo experiente, pode ser mal-agradecido a Deus, por não entender o plano divino; mesmo depois de aposentado, um missionário ainda tem muito a aprender a respeito de Deus etc.

No quesito inadequação do cuidado ao missionário por sua instituição, talvez a história até reflita certa realidade, pois aqui no Brasil, segundo o departamento Cuidado Integral do Missionário, da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB), somente em 1999 veio a existir a primeira Consulta sobre o Cuidado Pastoral do Missionário. E a organização formal do Cuidado Integral do Missionário (CIM) aconteceu apenas em 2009. De acordo com o CIM, foi nessa época que as organizações missionárias começaram a buscar assessoria nessa área e a criar seus próprios departamentos para cuidar dos missionários. Em documento apresentado pelo COMIBAM, em 2006, já se afirmava que “O investimento que está sendo feito nessa área ainda é muito incipiente para suprir a crescente demanda por esse tipo de ‘cuidado integral’”.

No entanto, o que mais me chamou a atenção na história do casal missionário, acima relatada, foi a situação deplorável que o missionário se encontrava: frustração, perda da fé, falta de temor e ausência de relacionamento com Deus. Devo confessar que, graças a Deus, nunca vi nada igual. Estou no campo missionário há quase 37 anos e todos os missionários que conheci, que passaram 50 anos de suas vidas no campo, criaram relacionamentos profundos com o povo a quem ministravam a Palavra e não queriam voltar para “casa”, queriam ficar. Entretanto, por exigência da organização enviadora, tiveram que retornar ao país de origem. Porém, alguns, a despeito de toda exigência, escolheram passar o resto de suas vidas aqui no Brasil, como os colegas Bacons.

Os Millers, que ficaram por mais de 50 anos no norte do Brasil, por obediência a sua Missão, foram para os Estados Unidos como cumprimento de suas aposentadorias, mas logo voltaram ao Brasil com outra organização missionária, a Missão Jovens da Verdade (Teen Mission). Eles eram jovens de 70 anos de idade! Algum tempo depois, por questões familiares, retornaram aos Estados Unidos. Em menos de três anos o esposo veio a óbito. A saudade que sentia do campo missionário era imensa!

John e Audrey Taylor, da Inglaterra, chegaram ao Brasil em 1960, para trabalhar com os Kaiwá. Em 1999, John veio à óbito, mas sua esposa não parou o trabalho com o citado povo. Mesmo depois de aposentada, tem visitado duas vezes ao ano a área indígena para a qual Deus a chamou. Agora, em 2019, mesmo com 90 anos de idade, ainda veio ao campo missionário, por duas semanas. Há muitos outros exemplos que poderiam ser citados, para ilustrar vidas dedicadas a Deus e ao trabalho missionário.

Por tudo isso, a história inicial de nosso artigo parece apócrifa. Um missionário só fica 50 anos em um campo missionário quando tem um profundo relacionamento com Deus, uma firme clareza ministerial e uma forte convicção de seu chamado.

SHIRLEY SOUZA

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