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Damasco, a acidez das exortações e a doçura das missões

Se perguntássemos a cada um dos missionários que conhecemos sobre o que desencadeou neles a paixão por missões certamente que teríamos a descrição de diferentes motivações associadas a diferentes histórias de vida. Quem sabe se tivéssemos sido contemporâneos de Paulo e em alguma oportunidade pudéssemos pedir a ele que nos desse uma única palavra chave sobre o seu chamado para as missões, é possível que dentre muitas lembranças “Damasco” lhe viesse à mente. De outra forma, se fossemos contemporâneos de Isaías, talvez a palavra “Damasco” lhe remetesse à profecia que aparece no capítulo 17 do livro de Isaías, mencionando a destruição da cidade.

Palavras podem ter diferentes significados para diferentes pessoas no tempo e no espaço. Damasco por exemplo, pode tanto significar a capital da Síria como o fruto do damasqueiro. Seria possível encontrarmos convergência entre diferentes significados para uma mesma palavra? O propósito deste texto é explorar dois significados aparentemente distintos para a palavra Damasco, mas com um curioso ponto de convergência a partir de sua definição linguística, à luz das experiências vivenciadas pelo profeta Isaías e pelo apóstolo Paulo, dois homens de Deus com missões diferentes, porém com propósitos convergentes. A ideia é mostrar que diferentes formas de lembrança para uma mesma palavra não precisam ser excludentes, às vezes são até mesmo complementares.Na atual conjuntura internacional é impossível falar sobre Damasco sem mencionar a sua relação com a Síria, ainda que seja simplesmente por razões sócio-políticas ou também pela responsabilidade no contexto de missão integral.

A Síria enfrenta desde 2011 um conflito com proporções de guerra civil que registra cerca de 130 mil mortos e 2 milhões de refugiados buscando abrigo em nações vizinhas. A guerra tem como eixo central a presença do ditador Bashar Al-Assad que governa o país há mais de 13 anos. A crise foi desencadeada na chamada primavera Árabe em 2010, com a queda do ditador da Tunísia. A partir desse momento uma brecha foi aberta para que outras nações fizessem o mesmo, como por exemplo, o Egito. São extremamente precárias as condições de estrutura sanitária na Síria no momento e o acesso às áreas atingidas é quase impossível. Dentre as frases mais marcantes do momento, destaca-se a afirmação da frente islâmica: “o futuro da Síria será assinado com sangue”, em matéria publicada no jornal britânico The Guardian em 20/01/14 (http://www.theguardian.com/world/2014/jan/20/syria-regime-rebels-geneva-peace-talks).

Em meio ao caos, a lendária Damasco tenta se equilibrar entre o controle do país pelo regime sírio e a contestação dos rebeldes islâmicos.

É quase impossível pensar em outra coisa que não seja guerra quando se ouve alguém pronunciando a palavra Damasco nos dias atuais. Chega a ser mesmo estranho lembrar que Damasco também tem outros significados, como por exemplo, o nome popular dado aPrunus armeniaca, uma árvore com origem incerta, mas com indícios sugerindo China e Ásia Central. A árvore tem cerca de 8 metros de altura e produz lindas flores e belos frutos comestíveis, caracterizados pela mistura dos sabores ácido e doce. Mais estranho ainda, seria neste momento se importar com as qualidades medicinais e nutricionais do fruto, considerado antioxidante e rico em fósforo, potássio e cálcio. Um tanto quanto alienante também seria dizer que faz parte das iguarias utilizadas em festas natalinas, até mesmo no Brasil.

Independente das razões que levam cada pessoa a pensar sobre o que Damasco traz à memória, parece que a palavra se encaixa naquelas com significados ambíguos. Contudo, em decorrência dos fatos recentes, no momento a balança pende para o lado da cidade e não do fruto. Mas pensando um pouco mais no fruto, descrever o que é ao mesmo tempo ácido e doce não parece uma tarefa fácil. Porém, mais desafiador ainda seria tentar compreender o significado da cidade de Damasco nas visões de Isaías e de Paulo, principalmente levando em conta uma realidade que carrega intensa herança de guerra, com motivos civis e religiosos.

Damasco é marcada por históricos e sucessivos conflitos desde os tempos bíblicos, com sérias repercussões políticas em decorrência, sobretudo da sua localização no território sírio. Essa sucessão de eventos desastrosos poderia ser mais facilmente associada à narrativa expressa no capítulo 17 do livro de Isaías, texto que descreve a rebeldia do povo em relação ao Deus criador. No entanto, não é intensão aqui fazer qualquer alusão profética nesse sentido, seria uma atitude ao mesmo tempo ingênua, pretenciosa e irresponsável.Por outro lado, a cidade está associada a um legado que relata provavelmente o mais notável chamado missionário de todos os tempos, a transformação do perseguidor Saulo no perseguido Paulo.

Não há como refletir sobre a ácida e doce Damasco sem examinar, ainda que bem superficialmente, as personalidades de Isaías e de Paulo. Isaías é considerado um dos profetas mais importantes da história bíblica, sobretudo por ser o anunciador da vinda do Messias, o Deus que se fez homem, sofrendo o martírio em nosso lugar para restabelecer o elo com o Deus Pai (Is. 53). O seu chamamento ao repensar humano é evidente desde o primeiro capítulo, quando a rebeldia do povo contra os preceitos divinos já se fazia bastante presente (Is. 1:4). Filho de Amós, profeta que já recebera de Deus a missão de educar o povo com as suas leis e chama-los ao arrependimento, a tônica do ministério de Isaías estava de certa forma estabelecida para atuar diante de sua geração, com o mesmo empenho do Pai, trazendo, entretanto, a mais bela notícia que a humanidade poderia receber, a vinda do redentor.

As marcantes palavras do profeta, registradas em Isaías 9, teve e tem até hoje efeito balsâmico para o homem. Ainda que quiséssemos expressá-las de outra forma jamais seriamos capazes, pois o seu conteúdo é literalmente claro, belo e benfazejo ao coração humano: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz (Is. 9:6)”. Contudo, há também outros belos textos na Bíblia escritos por ele. Dentre eles estão certamente seus escritos enfatizando a vinda do Messias para a remissão do seu povo, com linguajar missionário e sabor levemente poético. Como é belo e edificante o verso: “Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, do que anuncia o bem, que faz ouvir a salvação, do que diz a Sião: o teu Deus reina” (Is. 52:7). Essas palavras criam oportunidade para repensarmos e fortalecermos nossa visão sobre os nobres e legítimos missionários, muitos dos quais sequer conhecemos. Há nesse verso um misto de valorização da vocação missionária e da inestimável promessa de Deus sobre o estabelecimento da redenção para a humanidade. O caráter profético da visão de Isaías sobre Damasco (Is. 17) revela a sua preocupação com os habitantes da cidade, que pela força do poder divino seriam reconduzidos à reflexão sobre o Deus criador e ao retorno dos corações ao Santo de Israel (Is. 17:7).

Saindo do cenário aqui intitulado de ácido voltamos nossa atenção agora para o cenário doce de Damasco, reportando-nos agora ao ministério de Paulo. Apesar da nítida vocação de Paulo como missionário do Reino de Deus, expressa indiretamente em relatos bíblicos, a palavra missionário não aparece literalmente na Bíblia, porém em Romanos 1:1 encontra-se a alusão ao “apóstolo separado para o evangelho de Deus”. Em seu livro intitulado “A visão missionária na Bíblia, uma história de amor”, o missionário Timóteo Carriker convida os leitores a mergulhar no entendimento da “largura, comprimento, altura e profundidade do amor de Deus” (Ef. 3:18), como bem lembrado por Elben M. Lenz César na apresentação da obra. Essa extraordinária dimensão da obra missionária desafia o povo de Deus a compreender melhor o que se passa na mente e no coração de um missionário como o apóstolo Paulo. Dentre os inúmeros momentos de destaque da ação missionária de Paulo, merece atenção a sua sábia e sensitiva abordagem aos atenienses, quando no Areópago inseriu o Deus que o retirara do reino das trevas para a luz no contexto local, apropriando-se da cultura do povo de Atenas para se referir ao “Deus desconhecido” como o Deus da sua pregação (At 17:23). Somente alguém com sensibilidade missionária aguçada poderia utilizar deste recurso para conquistar cidadãos com cultura grega tão arraigada.

As viagens de Paulo, descritas em Atos a partir do capítulo 13, destacam de forma muito clara o caráter missionário de seu ministério. O Evangelho era pregado por Paulo a tempo e fora de tempo (II Tim. 4:2) e para diferentes culturas, o que certamente consistia em grande desafio. Contudo, a graça do Eterno Pai supria as necessidades específicas do apóstolo, como ele mesmo reconhecia (II Cor. 12:9). Certamente, todo o seu envolvimento com a obra missionária tinha como motivação o momento mais marcante de sua vida, quando no caminho para Damasco foi impactado pelo evangelho e sob a incomparável ação perdoadora de Deus foi redimido, tornando-se um missionário com extraordinária experiência de vida a ser compartilhada com as nações.

A era dos missionários em escala de produção local e global parece já estar ocorrendo a todo o vapor. Mas será que as motivações que tem levado pessoas a dizerem que são chamadas para o evangelismo em tempo integral tem a ver com o que poderíamos chamar de“legado de Damasco”, seja pela missão exortativa do profeta Isaías ou pela missão evangelística do apóstolo Paulo? Naturalmente essa não é uma pergunta de ser facilmente respondida, afinal mensurar o chamado e o impacto de legítimos e falsos missionários no mundo moderno é tarefa caracterizada por alta subjetividade, similar de certa forma ao pensamento de Jesus quando mencionou a parábola do trigo e do joio (Mt. 13:24-30). Mas, acima de tudo, os frutos gerados nas pessoas impactadas pelo Evangelho (Gal. 5:22) e a natureza das promessas feitas em nome de Deus atestarão a legitimidade da pregação (Deut. 18:20-22) e certamente que a justiça será feita aos usurpadores da fé, “porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro” (Gal. 5:17).

Damasco, mesmo “saboreado por diferentes degustadores” mostra ao mesmo tempo acidez e doçura, sabores típicos do fruto que conquistou o mundo pela sua diversificação gustativa. É provável que as lembranças de Damasco por Paulo e por Isaías, também sirvam de inspiração para conquistar almas para Cristo ao redor do mundo, justamente por suascaracterísticas simultaneamente ácida edoce.A versatilidade do fruto permite uma analogia com as possíveis formas de enxergar a cidade na ótica do profeta e do apóstolo. Ambos pareciam preocupados com o futuro dos que conheceram à Deus um dia, mas dele se afastaram.

Também se preocupavam com aqueles que ainda não conheciam o evangelho de Cristo, mas que de forma sobrenatural seriam atingidos pela luz divina capaz de convencê-los da cegueira espiritual, conclamando-os ao arrependimento. Se por um lado a exortação profética por intermédio de Isaías pode suscitar sabor ácido à Damasco em razão do perfil rebelde de um povo que se desviou do criador resultando no peso da mão de Deus sobre a nação, a pregação do evangelho da paz por Paulo traz a percepção de que pelo infindável amor de Deus somos desafiados a meditar nas palavras do salmista quando afirma que o seu juízo é verdadeiro, justo e maisdoce do que o mel (Sl. 19:7-10).

Wesley Godoy

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