Missionário eu já sou
11/07/2026
A atmosfera dentro do ônibus era de intensa alegria. Estávamos retornando do encontro da APMT, em Porto Feliz, em direção a São Paulo. Um menino, de quatro anos de idade, ia passando, saudando todos com estampada satisfação em seu rosto. Então, uma missionária indagou se ele seria missionário quando crescesse. “Missionário eu já sou”, respondeu ele, “quando eu crescer, vou querer ser bombeiro”.
Para alguns, a fala dessa criança pode parecer admirável, para outros, espetacular, ainda para outros, um desafio. O fato é que a palavra “Missão”, com seu termo derivado “Missionário”, tem sido usada e estudada sob diferentes óticas. O missiólogo David Bosch, em seu livro “Missão Transformadora”, afirma que a Bíblia não oferece uma única perspectiva de missões, mas várias. Ou seja, a conceituação de Missão não é algo trivial.
Keith Ferdinando, em seu artigo de título bastante sugestivo, “Missão: Um Problema de Definição” (Fides Reformata XXVIII, No 1, 2023), revela de forma bastante lúcida essa complexidade. Ele alerta para o fato de que o substantivo, Missão, não está na Bíblia. No entanto, ameniza dizendo que isso não é um problema, pois a palavra “Trindade” também não está. Segundo ele, embora o termo Missão “não apareça explicitamente nas Escrituras, a ideia é evidente em passagens que mostram Deus enviando pessoas”. O próprio Jesus falou: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21).
Dicionarizada, a palavra Missão significa “atribuição de função, de incumbência ou de encargo”. A ausência da palavra na Bíblia não nos exime de enviarmos e sermos enviados. Os quatro textos bíblicos da chamada grande comissão (Mt 28.19, Mc 16.15, Lc 24.47 e At 1.8) trazem em seu bojo essa ideia de atribuição de encargo.
Em um movimento polissêmico, a palavra Missão tem incluído diferentes conceitos e ações. Ferdinando, em artigo já citado, explicita muito bem as diversas definições.
Sem pretensão de contribuir para o estudo da Missão, a seguir tento descrever a prática de Missão efetuada por algumas pessoas no seio da igreja, embora ilustre esse fato com apenas um exemplo.
Anos atrás, estava em uma igreja em Campinas-SP conversando com velhos amigos. De repente, notei um desses meus amigos isolado, cabisbaixo, cabeça entre as mãos. Parecia bem triste. Ele me explicou a razão: “Eu quero ser missionário, mas Deus não me aceita. Eu tenho certeza que ele me quer na força aérea brasileira”. Então lembrei de uma conversa que tivemos alguns anos antes. Ele me havia dito que quando chegou para fazer seu primeiro curso de oficial da aeronáutica, o maior grupo religioso era espírita. Quatro anos depois, quando se formou, o maior grupo era evangélico, graças ao esforço dele e de mais dois amigos. Eu disse a ele: “Deus aceitou você e você não compreendeu a comissão a você repassada”. O rosto dele transformou-se em radiante alegria. Li com ele Êxodo 31.1-6: “Disse mais o Senhor a Moisés: Eis que chamei pelo nome a Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi do Espírito de Deus, de habilidade, de inteligência e de conhecimento, em todo artifício, para elaborar desenhos e trabalhar em ouro, em prata, em bronze, para lapidação de pedras de engaste, para entalho de madeira, para toda sorte de lavores. Eis que lhe dei por companheiro Aoliabe, filho de Aisamaque, da tribo de Dã; e dei habilidade a todos os homens hábeis, para que me façam tudo o que tenho ordenado”.
Eu informei a ele: “O seu trabalho é diferente do meu, mas ambos são trabalhos missionários. Dificilmente eu teria acesso aos oficiais das forças armadas como você tem”. Anos depois, meu dileto amigo contraiu câncer extremamente agressivo e veio a óbito. Em seu funeral, na igreja, a maioria absoluta dos presentes era da Força Aérea Brasileira. Sua esposa disse: “Meu esposo orava por vocês individualmente, nome por nome. E falou de Jesus a cada um de vocês pessoalmente”. Meu amigo teve uma prática missionária exemplar.
Pode ser que ele e meu pequeno amigo de quatro anos estejam fora das definições de Missão e de Missionário. Meu saudoso amigo era nosso parceiro de oração e de finanças; meu querido amigo de quatro anos já nos visitou na aldeia, juntamente com seus pais. “Missionário eu já sou”. Que o Deus Trino use sua futura profissão para continuar a desempenhar sua tarefa missionária. E que ao desempenhar seu trabalho, esteja cheio do Espírito Santo, assim como ocorreu com Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá.
Isaac de Souza
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