Traduzindo a Bíblia para línguas indígenas
17/09/2025
Traduzir a Bíblia para uma língua minoritária é um trabalho árduo, longo e difícil. Apesar disso, Deus tem sido gracioso e a cada ano novas línguas recebem porções das Escrituras. Contudo, apesar dos esforços das agências de tradução, estima-se em quase duas mil o número de línguas no mundo sem qualquer porção da Bíblia.
O PROCESSO DE TRADUÇÃO
A seguir, passo a descrever um pouco do processo de tradução para que o leitor tenha uma ideia das etapas envolvidas.
Período pré-tradução
Nesse período, o missionário primeiro terá que se aproximar do povo alvo. Essa aproximação, salvo em casos especiais, dá-se via contato com a FUNAI e/ou pessoas-chave da comunidade indígena. Em geral, missionários atuam em áreas sociais como saúde, educação, desenvolvimento comunitário, etc. Em alguns casos, os missionários são linguistas e estão na área com a função específica de estudar a língua indígena. Após o acesso à comunidade, inicia-se o processo de aprendizagem da língua e cultura. Nesse período, o missionário faz uso das ferramentas aprendidas em seu treinamento linguístico e antropológico. Nessa fase, ele também deverá estar atento às chamadas “pontes culturais”, ou seja, aspectos culturais que possam servir de ponte na comunicação do evangelho.
Após adquirir um conhecimento razoável de várias áreas da língua e cultura, o missionário irá buscar vocabulário que possa usar na tradução. Que palavras usará para ‘Deus’, ‘anjos’, ‘demônios’, etc.
Período da tradução
Até que o missionário chegue a esse ponto, é muito provável que pelo menos dois anos já tenham se passado. Agora ele tem um domínio razoável da língua, podendo se comunicar relativamente bem em várias situações. Ele irá, então, procurar pessoas da comunidade indígena que possam auxiliá-lo no processo de tradução. Em geral, um ou dois ajudantes são contratados no início do trabalho. Às vezes, é preciso tentar várias vezes até que a pessoa adequada seja encontrada. Achadas as pessoas certas, os primeiros versículos são traduzidos.
Período pós-tradução
A tradução não é um fim em si mesmo. Ela visa à plantação de igrejas em uma determinada etnia. Ela é também vital no processo de discipulado. Portanto, paralelamente à tradução, deve haver um programa para incentivar o seu uso. Em geral, esse processo é levado a cabo por missionários de várias agências missionárias/denominações, com o apoio dos tradutores. Material auxiliar e explicativo é normalmente produzido também nessa fase. O ideal é que isso ocorra simultaneamente ao processo de tradução.
DESAFIOS
No processo de tradução, o tradutor enfrenta uma série de desafios. A seguir, enumero alguns a título de exemplo.
Linguístico
Existe um antigo ditado que diz “tradutore traditore” “tradutor, traidor”. Traduzir não é tarefa fácil. Embora as línguas tenham muitas coisas em comum, também têm muitas peculiaridades. Essas peculiaridades se transformam, às vezes, em verdadeiras barreiras à comunicação do evangelho. Às vezes, os reajustes linguísticos são necessários por absoluta falta de estrutura gramatical equivalente na língua receptora. É o caso, por exemplo, da voz passiva que é usada abundantemente no Novo Testamento. Não há voz passiva nas línguas tupi-guarani do Brasil, por exemplo. Toda vez que essa estrutura aparece no NT terá que ser reajustada. Uma frase como “seus pecados foram perdoados” terá que ser traduzida como “Deus perdoou os seus pecados”.
Para o leitor que talvez ache estranha essa liberdade do tradutor de fazer reajustes linguísticos na tradução, deixe-me dizer que até mesmo certas traduções consideradas relativamente literais também a tiveram. Veja, por exemplo, o texto de Juízes 3:24 na versão de Almeida Revista e Atualizada:
“Tendo saído, vieram os servos do rei e viram, e eis que as portas da sala de verão estavam trancadas; e disseram: Sem dúvida ele está aliviando o ventre na privada da sala de verão”.
A expressão traduzida “aliviando o ventre” não é realmente o que encontramos no texto Hebraico. Uma tradução literal seria “cobrindo os pés”. Como essa é uma expressão idiomática desconhecida dos falantes de Português 1, os tradutores preferiram eliminar a figura contida no original e dar o seu significado diretamente. Isso é perfeitamente aceitável do ponto de vista dos princípios de tradução. Embora a forma tenha mudado, o sentido original foi preservado.
Histórico-cultural
A Bíblia é um livro cultural. Uso aqui a palavra cultura em seu sentido antropológico 2. Ela está cheia de costumes e tradições de povos particulares, em um determinado momento da história desses povos. As culturas, porém, não são iguais. Há conceitos conhecidos de certas culturas que são desconhecidos de outras. Eu me lembro, quando criança, quanta dificuldade tive para entender as palavras de Jesus sobre construir uma casa na rocha. Eu ficava sempre imaginando como devia ser difícil cavar o alicerce sobre uma rocha! Como todo mundo, eu estava lendo as Escrituras com os meus óculos culturais! Só muito tempo depois, quando estava no seminário, que vim a entender a forma cultural judaica de se construir uma casa.
Então, como fazer para traduzir um conceito desconhecido? Há pelo menos três caminhos que o tradutor pode seguir: primeiro, ele pode usar um substituto cultural que tenha a mesma função. Numa cultura, por exemplo, que não conheça ‘pão’, o tradutor poderá usar um substituto cultural. O beiju tem sido usado por alguns tradutores como um bom substituto. Inclusive tem sido usado na Ceia do Senhor como o primeiro elemento servido. Segundo, o tradutor poderá fazer uma associação com um elemento conhecido da cultura. A palavra carneiro, em Tembé, por exemplo, é o animal ‘que parece com o veado’. Terceiro, o tradutor poderá usar uma frase explicativa do conceito ao invés de uma palavra equivalente ou substituta. A palavra ‘vinho’, por exemplo, foi traduzida como ‘a bebida extraída de uma fruta chamada uva’. Você deve estar pensando: “com expressões desse tamanho, não é à toa que os Novos Testamentos em língua indígena sejam mais grossos do que a Bíblia inteira em Português!”
Espiritual
A história tem demonstrado, e não poderia ser diferente, que o envolvimento num programa de tradução implica envolvimento numa guerra espiritual. É fato marcante que o inimigo mor de Deus não deseja que as Escrituras Sagradas sejam traduzidas e estejam acessíveis aos povos da Terra. É possível que não tenha havido livro mais perseguido na história da humanidade do que a Bíblia Sagrada. Poderíamos gastar páginas e mais páginas narrando exemplos de oposição satânica ao processo de tradução. Aqui vão apenas alguns.
Queimando histórias bíblicas. Certa antropóloga convenceu uma comunidade indígena no norte do Brasil a queimar as histórias bíblicas traduzidas pelos missionários.
Problemas com o computador. Certa ocasião, meu computador foi atacado por um vírus e não fossem as cópias de segurança que fizemos para o texto do Antigo Testamento em Guajajara, teríamos perdido tudo. Isso acontece com muita frequência com tradutores. Naturalmente, não estou advogando que qualquer problema eletrônico deva ser interpretado como conflito espiritual. Isso acontece a toda hora e com todo mundo. Porém, a frequência e os tipos de problemas que acontecem não deixam dúvida de que, em certos momentos, a origem de um problema com equipamento tem mesmo razão espiritual!
Doenças e opressão - muitas vezes os tradutores são acometidos de doenças ou opressão espiritual. Satanás tenta barrar o trabalho de todas as formas!
Problemas políticos com o governo - vários tradutores no Brasil já foram expulsos de área indígena pela FUNAI. Conheço um missionário que chegou a ser retirado da aldeia pela Polícia Federal; e ainda outro que foi trocado por duas espingardas.
CONCLUSÃO
Acredito que por estarmos tão habituados com o fato de termos as Escrituras disponíveis em nossa língua materna, não percebemos o valor disso. Mas para povos que, em pleno século vinte e um, ainda aguardam para ter acesso à Palavra de Deus, a tradução é celebrada com júbilo e alegria. Termino com as palavras de oração de um ancião Apinajé, após receber o Novo Testamento em sua língua:
“Olá Deus, aqui estamos para ler a tua fala no papel. É muito bom tê-la em nossa própria língua. Nós temos feito muitas coisas más, mas o Teu filho desceu e morreu para pagar pela nossa maldade. Que bom que o Senhor o enviou para nós. Agora nós iremos ler a tua fala no papel. Ajuda-nos a obedece-la. Nós queremos te seguir. É só!”
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