Uma experiência transformadora em Pocsi - Peru
06/08/2025
O que realmente aconteceu naquele lugar?
Começamos a subir por uma estrada sinuosa no início da tarde. O céu estava claro, com algumas nuvens esparsas e o ar extremamente seco. A cadeia de montanhas ao nosso redor era de tirar o fôlego.
Eu não sabia exatamente o que aguardava nossa equipe naquela viagem rumo ao Pueblo de Pocsi. Obtive algumas poucas informações antecipadas com nossos missionários da APMT, Rev. Alfonso Cervantes e sua esposa Vanessa, que servem em Arequipa há mais de uma década. Sabia que a altitude era de 3.000 metros acima do nível do mar e que a população era totalmente composta por camponeses católicos romanos de longa tradição. Nossa equipe de estagiários do CFM, futuros missionários da APMT em campos transculturais, estava empolgada para conhecer o lugar e realizar ações evangelísticas.
Ao entrarmos no pequeno povoado, as ruas estavam desertas – ninguém nas casas, nenhum comércio aberto. Fomos informados de que todos saíam bem cedo para as plantações e retornavam no meio da tarde.
Ao estacionarmos na praça central, havia três senhoras idosas – uma em cadeira de rodas e duas outras num banco. Alguns degraus acima, dois senhores ocupavam outro banco. O mais idoso usava um chapéu de abas largas que dificultava a visão de seu rosto. Sua pele bronzeada revelava longos anos de trabalho na lavoura.
Ao descermos dos carros, subi em direção aos dois senhores. Ali começou uma experiência que jamais esquecerei. Cumprimentei ambos com um aperto de mão amigável, disse que me chamava Mônica, que era do Brasil, e perguntei seus nomes. O senhor de chapéu não ouvia bem, murmurou algo que não entendi, mas o outro se apresentou como Perci. Expliquei que éramos brasileiros que fomos conhecer os pocsenos e oferecer-lhes o amor de Deus.
Nossas atividades programadas incluíam cantar, pregar um texto bíblico, apresentar uma peça teatral e teatro de fantoches para crianças, distribuir Novos Testamentos, orar, doar roupas e cobertores (o frio de madrugada, nesta época do ano, chega a menos de 5 graus) e servir um lanche. Tudo foi realizado, mas nosso Pai Celestial tinha planos que iam além dos nossos.
1Fiz inúmeras perguntas a Perci e ele as respondeu com sinceridade. Vivia ali desde que nasceu. Ali se casou e teve cinco filhos. Como só existe escola primária no local, os filhos precisam ir para Arequipa cursar o ensino médio, o que a maioria faz. Sua filha caçula tem necessidades especiais e vive com os pais no vilarejo.
Perci é um octogenário sábio e temente a Deus. Seu pai o ensinou a temer a Deus, a respeitar todas as pessoas, trabalhar com afinco, criar os filhos segundo princípios cristãos e jamais prejudicar ninguém – valores que procurou viver.
Hoje, os quatro filhos vivem em Arequipa e insistem para ele vender a chácara e ir morar na cidade, argumentando ser melhor e mais confortável. Ele parou e disse: "O que pode ser melhor do que viver aqui? Posso ver o céu, as estrelas, respirar ar puro, acordar cedinho, ouvir o silêncio que só o campo oferece, cuidar das plantações, tomar meu chá tranquilamente, conversar com minha esposa e alimentar meus animais". Emocionei-me profundamente.
Devido à falta d'água, o plantio está limitado. Ele cultiva orégano, cebola, alho, batatas variadas, mandioca e alfafa para os animais.
Conversamos sobre Deus e Jesus, sempre com muito respeito. Em certo momento, Perci disse: "Nasci católico, cresci católico e vou morrer católico. Não posso mudar de religião, pois nela meu avô criou meu pai, e meu pai me criou". Respondi que o compreendia, acrescentando que o importante mesmo é saber quem Jesus é, o que fez por nós e crer nele.
Nesse momento chamaram para a peça teatral. A praça estava repleta de pessoas, todas recém-chegadas do campo. Tudo que planejamos foi realizado, mas algo inesperado aconteceu.
Eu havia levado uma pequena bandeira do Brasil para presentear alguém do povoado. Quando o Rev. Alfonso ia encerrar a programação, pedi a palavra e disse: "Queridos moradores de Pocsi, obrigada por nos receberem tão bem. Trouxe uma bandeira do meu país e, como não posso dar a todos, entregarei ao meu novo amigo Perci. Sintam-se presenteados na pessoa dele". Aproximei-me, entreguei a bandeira e nos abraçamos.
Foi então que o "mais de Deus" se manifestou.
Perci pediu atenção de todos os conterrâneos. Com o Novo Testamento na mão esquerda e a bandeira do Brasil na direita, proferiu um dos mais belos discursos que já ouvi: "Meus irmãos pocsenos, aqui está a solução para todos os nossos problemas" – levantando o Novo Testamento. "Deus jamais se esquece de nós, somos nós que nos esquecemos dele. Se vocês têm problemas com filhos, cônjuges, família, trabalho é porque deixaram de lado as santas instruções registradas aqui. Não deixem de ler os Evangelhos! Coloquem-nos em prática. Não guardem este livro esquecido numa gaveta. Vocês precisam ler a Sagrada Escritura todos os dias! Não se esqueçam dela! Aqui está registrado tudo que Deus quer nos dizer. Não reclamem dos problemas, todos nós os temos. Não vivam se lamentando! Busquem a Deus! Leiam sua Palavra!"
Fiquei quase paralisada! Aquele homem simples, desdentado, com olhos envelhecidos pelo tempo, estava pregando a Palavra de Deus ao seu próprio povo e em sua própria língua! Senhor, o que foi isso que aconteceu? O que o Senhor fez? Perguntava eu, atônita e maravilhada.
Fomos ali, timidamente, um pequeno grupo de estrangeiros para evangelizar pessoas desconhecidas, numa língua que a maioria não falava, num lugar onde nunca estivéramos. E Deus, em sua majestade e soberania, foi além, nos desconstruiu, nos deslumbrou, trouxe adoração aos nossos corações e, creio eu, encontrou novos adoradores entre seus eleitos naquele lugar. Louvado e engrandecido seja seu grande e bendito nome.
Mônica Mesquita

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