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A vocação pessoal e a dor na formação do missionário

“Você foi eleito por Deus”! Quantas vezes já ouvimos essa frase? Contudo, nós missionários poucas vezes nos damos conta da real dimensão do que é termos sido eleitos por Deus em Cristo Jesus, e as implicações disso para o campo no qual nos encontramos ou para onde estamos sendo enviados sob o poder do Espírito Santo. E é sobre isso que quero conversar com você.

Muito temos lido e ouvido sobre “vocação individual”, mas gostaria que você ampliasse o seu entendimento de vocação individual para o de vocação pessoal. Pode parecer não muito diferente, porém são substancialmente distintos um do outro. Muito mais que um número, um mero indivíduo destacado de um grupo, uma série no meio de uma catalogação, ou mesmo um item numa estatística a ser apresentada em igrejas e agências, a vocação pessoal retoma o fato bíblico de que o nosso Deus vem ao encontro de uma pessoa, uma pessoa com nome e sobrenome, alguém com uma história de vida e personalidade próprias. “Pessoalidade” é a qualidade do indivíduo que o faz diferente dos demais. Por isso, quero afirmar aqui que é com a sua pessoa que Deus marcou um encontro!

Quando Moisés foi encontrado por Deus na teofania da sarça ardente, para muitos é somente ali que começa a missão que Deus o designara para realizar: “Tira o meu povo da escravidão do Egito”! Porém, havia Deus separado Moisés desde o ventre da mãe dele para aquela obra. Moisés foi escondido do infanticídio egípcio; deixado nas águas do Rio Nilo; foi encontrado pela filha de Faraó; amamentado pela mãe judia e, mais tarde, criado no próprio Egito. Em outras palavras, a Providência Divina moldou a pessoa de Moisés para os seus planos muito “antes do dia de sua conversão”. Já parou para pensar nisso?

Quando Paulo foi lançado ao chão por aquela luz que o cegou e, então, ouviu uma voz que lhe perguntava: “Saulo, Saulo, por que me persegues? ”, novamente, para muitos, é somente a partir daquela cena que se inicia o preparo de Paulo para o apostolado entre os gentios. Entretanto, Paulo nasceu judeu com privilégios de cidadão romano; estudou aos pés de Gamaliel; era religioso zeloso entre os da sua geração. A vida pregressa de Paulo é mais uma demonstração que o seu preparo, a sua formação, quem ele era, tudo isso foi sendo preparado pelo próprio Deus para a missão que lhe foi confiada apenas após sua conversão. Deus providenciou as condições adequadas para que a pessoa de Paulo, desde o ventre da mãe dele, recebesse uma nota diferencial para um ministério muito específico ao qual o Senhor confiaria a ele.

Sei também que, por outro lado, já ouvimos diversas vezes que sem você Deus faria o que Ele planejou usando qualquer outro em seu lugar. E quanto a isso não tenho nenhuma dúvida. Deus tem poder para realizar os Seus propósitos usando quem Ele quer. Todavia, o que mais me surpreende é que, apesar de poder escolher outros indivíduos, a vontade de Deus nos mostra que Ele quer trabalhar com um eleito transformado em filho, um indivíduo que teve sua pessoalidade talhada em todos os detalhes pelo próprio Deus. Assim como Moisés e Paulo possuíam características, qualidades e condições forjadas pelo próprio Deus que os elegeu para Sua glória, eu e você também temos sido pessoalmente trabalhados para uma obra que está debaixo da Soberania do Pai. Neste ponto, faço de novo a pergunta: você já parou para pensar nisso?

Conheci a Jesus numa Faculdade de Letras em 1995. Após esse encontro, eu pude olhar para a minha vida anterior e ver claramente que Deus sempre esteve lá. Eu não queria ter feito Faculdade de Letras. Eu queria cursar Direito! Nos meus planos, eu iria apenas fazer o primeiro semestre de Letras e, mais uma vez, tentar Direito. Mas Deus, o Deus que eu ainda não conhecia, planejara outra vida para mim. Sequer poderia imaginar, em 1995, que cerca de 10 anos depois eu iria morar na aldeia do povo com o qual trabalhei, porque eu era um professor. As portas estavam fechadas para pastores e missionários, mas não para professores de língua portuguesa. E o que aquele povo, aquela etnia indígena queria era um professor de português (e não um advogado)!

Você foi eleito para a glória de Deus! E o que eu quero dizer com isso? Bem antes de você conhecer a Jesus, Ele já conhecia você muito bem! No decorrer da nossa vida, sequer reparamos que Deus já vinha nos modelando muito antes daquele dia ao qual estamos acostumados de ver como “o dia da nossa conversão” ou “o dia em que Deus nos direcionou ao campo transcultural”. E eu não estou falando apenas das nossas escolhas profissionais. Eu estou conversando com você sobre algo muito mais sério! Eu quero chamar a sua atenção para coisas que você talvez ainda não tenha compreendido. Você pode ter passado por experiências na sua vida pelas quais ainda “brigue” com Deus por causa delas. Bem ali no fundo do seu coração, quem sabe, você vem perguntando a Ele a razão disso ou daquilo ter acontecido na sua vida. Será que Deus não estava lá quando aquela pessoa fez aquele mal contigo ou com alguém a quem você amava muito? Deus não podia ter impedido aquela marca, aquela ferida, aquela dor? Aquela criança assustada ainda mora dentro de você e tampa os próprios ouvidos para não ouvir os gritos do pai e o choro de uma mãe indefesa?

São tantas as perguntas que fazemos, mas quando olho para as vidas de pessoas como Diná, Moisés, Paulo e Timóteo sou convencido pelo Espírito Santo de que a Providência Divina me preparou, desde o ventre da minha mãe, para uma obra específica. Por quê? Porque há pessoas magoadas, feridas, marcadas no campo missionário e elas precisam de pessoas como você, que realmente as entenda. Pessoas que hoje enfrentam lutas, sofrem abusos, são vítimas de violências das mais impensáveis e há, entre os missionários, pessoas que vieram dessas mesmas realidades.

Deus colocará pessoas sob seus cuidados, pessoas que nunca confiaram em ninguém para compartilhar as feridas que a vida lhes fez. Essas pessoas não têm encontrado pastores amáveis, irmãos compreensíveis, corações compassivos e nem missionários sensíveis, mas Deus está enviando você!

Eu trabalho hoje ao lado de uma escola em que, culturalmente, há um alto índice de abuso infantil no seio das famílias dos alunos, e essas crianças são ameaçadas de morte por seus abusadores e abusadoras. Estamos orando para encontrarmos a melhor maneira de enfrentarmos e cuidarmos do sofrimento dessas crianças. Ouvimos suas histórias, visitamos suas casas e damos o abrigo espiritual necessário à dor delas.

Deus preparou você, você viveu experiências que, agora, serão usadas para que pessoas como essas possam ver nos seus olhos uma empatia amorosa, ver que você foi salvo e que sua vida encontrou em Cristo Jesus a restauração que precisava. Deus sempre esteve conosco em todos os momentos e, agora, eu e você podemos compreender que Ele estava nos preparando para cuidar de alguém, “pois todos sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8:28). Você já parou para pensar nisso?

Fábio Ribas

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