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A Reforma Protestante do Século XVI e sua contribuição para o avanço da obra missionária

Antes do século XVI, houve algumas tentativas de reformas dentro da Igreja Católica Romana, mas todas elas foram reprimidas duramente pela alta cúpula da igreja e, por isso, os chamados pré-reformadores não obtiveram êxito. Porém, as coisas começaram a mudar a partir de 31 de outubro de 1517, quando o monge agostiniano Martinho Lutero fixou as suas famosas 95 teses na porta da catedral de Wittenberg, na Alemanha, questionando a autoridade papal, o abandono das Escrituras Sagradas e as indulgências, que eram a venda de bênçãos divinas como o perdão dos pecados e a vida eterna.

Pela providência divina, logo em seguida a esse evento, a Reforma ganhou força e adeptos na Alemanha pela pregação e ensino de Lutero e, mais tarde, na Suíça, pela pregação e ensino de João Calvino. O chute inicial da Reforma Protestante do século XVI veio, portanto, pelos pés de Lutero e a cabeçada para o gol foi dada por Calvino, se é que podemos ilustrar assim. Há quem diga que Lutero proveu os pés e a força, e Calvino a cabeça e a inteligência da Reforma, sem menosprezarmos o trabalho incansável de outros homens de Deus, como Guilherme Farel, Teodoro de Beza, Henrique Bullinger, Martin Bucer e outros anônimos, todos colaboradores importantes para o avanço do movimento da Reforma.

A iniciativa de Lutero ficou conhecida mundialmente como o marco da Reforma Protestante do Século XVI, que foi essencialmente um movimento de volta para a Bíblia. Agora em 2020 completam-se 503 anos dessa data histórica para a cristandade mundial, comemorações já estão sendo feitas e ainda continuarão por todo o ano. No Brasil, não será diferente: cultos, congressos, encontros e conferências estão sendo organizados para celebrar os cinco séculos da vitória da Palavra de Deus sobre a tradição humana, da vitória da Igreja de Cristo sobre a igreja romana.

É muito comum pensar na Reforma como um movimento religioso apenas com preocupações de defender a fé cristã bíblica diante da heresia católica romana. Havia sim esse elemento de defesa da fé, por causa dos inúmeros erros doutrinários que foram propagados pela igreja católica como a idolatria, a intercessão dos santos, a repetição do sacrifício de Cristo na missa, a venda de indulgências, entre outros. Todavia, a reforma também teve um elemento de missão, isso é, ela contribuiu para o avanço da obra missionária no mundo.

No princípio da Reforma não houve um intenso trabalho para a plantação de novas igrejas por algumas razões naturais: primeiro, porque os reformadores tinham como prioridade expor o erro romano e chamar os crentes católicos e igrejas para a fé reformada; segundo, porque muitos que aderiram à fé reformada foram perseguidos e não contavam, em muitos lugares, com apoio do Estado para divulgar a fé e lidavam com a escassez de recursos financeiros. Por fim, no princípio da Reforma, havia uma luta pela sobrevivência, por se resgatar a fé como elemento importante de fortalecimento e preparação para o crescimento.

Os reformadores pregavam a Bíblia, pregavam-na com foco em Cristo e na sua graça revelada no evangelho, por isso suas pregações eram consideradas teológicas e eles mesmos ficaram mais conhecidos como teólogos do que como pastores e missionários. Todavia, eles faziam teologia para a igreja, ou seja, para a edificação e crescimento e, acima de tudo, faziam teologia para a glória de Deus. O lema deles era, como bem expressou Gerhard Ebeling, “Teologia sem proclamação é vazia, e a proclamação sem teologia é cega”.

Aquilo que ficou despercebido por muito tempo, a preocupação pastoral e missionária dos reformadores, tem sido colocado em destaque por alguns estudiosos de tempos modernos como o biógrafo de Calvino, Emile Doumergue, que já em 1901 escreveu: “O autêntico e verdadeiro Calvino, aquele que explica todos os outros, foi o Calvino pregador”. Sua obra mais conhecida, “As institutas da religião cristã”, tinha como objetivo primeiro ajudar os cristãos a compreenderem a sua fé e mostrar para os reis e príncipes que a fé reformada estava alicerçada nas Escrituras Sagradas, portanto, não era uma seita, mas o puro cristianismo bíblico e apostólico.

Calvino desenvolveu, sistematizou e ensinou teologia. Isso é fato consumado. Todavia, ele não a fez numa torre de marfim, isolado da realidade da igreja, e por isso não menosprezou a importância da pregação da Palavra de Deus. Estima-se que durante os seus 35 anos de ministério – pregando 2 sermões por domingo e uma vez por dia em semanas alternadas – tenha pregado mais de 3.000 sermões.

Entendendo a necessidade urgente da preparação de pastores para a pregação da Palavra de Deus, Calvino criou em Genebra a ‘Academia’, em 5 de junho de 1559. Contando com alunos vindos da França, Holanda, Inglaterra, Alemanha, Itália e de outras cidades da Suíça, a Academia preparou vários pastores que foram instrumentos de Deus para levar o evangelho nos moldes reformados aos seus países de origem. Quando João Calvino morreu, em 1564, cerca de 1500 alunos estavam matriculados nessa escola, chamada por André Biéler de “Seminário Teológico do Protestantismo Reformado.”

Pelo trabalho de Calvino na Academia, Genebra se tornou um grande centro missionário, um celeiro de missões, porque os foragidos que lá se instalaram puderam, posteriormente, levar para aos seus países e cidades de origem o evangelho na visão reformada, que fora ali recebido. John Knox, que estudou na Academia em Genebra aos pés de Calvino, a elogiou com as seguintes palavras: “É a escola mais perfeita de Cristo sobre a terra desde os dias dos apóstolos”.

Com trabalho dedicado e apoio de bons professores, logo a Academia cresceu, atraindo alunos de várias partes da Europa, que foram estudar lá, e muitos voltavam como pregadores ardorosos das ideias protestantes como, por exemplo, John Knox, que ao retornar para o seu país de origem, a Escócia, organizou a igreja reformada e a chamou de “Presbiteriana”, por ser governada por presbíteros.

É fato que os primeiros protestantes a pisarem o solo brasileiro em 1557 foram enviados com a participação de Calvino. Eles vieram para difundir a fé reformada no Brasil e proporcionar um lugar de refúgio para os crentes perseguidos na França e Europa. Essa tentativa não prosperou, principalmente, por causa da perseguição promovida por Villegaignon, que ficou conhecido como o “Caim das Américas.”

Por sua obra em Genebra, Calvino alcançou três benefícios para o protestantismo em geral. A vida moral da cidade foi um exemplo do que a fé podia realizar, e daí o poder de sua propaganda. Genebra foi a cidadela de refúgio para os perseguidos por causa da Reforma. Para essa cidade livre, veio gente da França, Holanda, Alemanha, Escócia e Inglaterra. Os refugiados encontravam ali um lar apropriado. Foi também um lugar sólido para líderes do protestantismo. Na Academia, e no ambiente geral da cidade, foram preparados ministros devotos, instruídos e destemidos que se espalharam, como missionários da reforma, pelos países onde esta ainda não havia entrado. Muitos refugiados voltaram aos seus países de origem, fortalecidos por sua estada em Genebra e por seu contato com Calvino. Um deles foi John Knox.

No fim do século XVI, até os meados do século XVII, o movimento protestante se expandiu para vários países: Hungria, Polônia, Holanda, França, Escócia, Inglaterra, Nova Inglaterra (atual Estados Unidos da América), além da Alemanha e Suíça. Mesmo que nos fins do século XVII e no século XVIII houvesse uma diminuição do avanço missionário, o século XIX, considerado “o século das missões modernas”, teve como ícone um missionário batista do ramo reformado, William Carey, que chamou a atenção dos líderes de sua igreja para que voltassem a compreender biblicamente a soberania de Deus e a responsabilidade humana na evangelização do mundo, doutrina reformada que estava sendo negligenciada pela igreja da época.

Apesar da inegável contribuição de Calvino e dos reformadores para a pregação da Palavra de Deus e avanço da obra missionária no mundo, é comum alguns estudiosos da missão da igreja pensarem que os reformadores não se interessaram pela pregação e missão como o alemão e historiador, Gustav Warneck, que afirmou: “Nós perdemos com os reformadores não apenas a ação missionária, mas até a ideia de missões… [em parte] porque perspectivas teológicas fundamentais deles evitaram que dessem para suas atividades, e mesmo a seus pensamentos, uma orientação missionária”.

Como já demonstramos, pensamentos como o de Warneck não têm consistência histórica e prática, por isso continuaremos a enfatizar a importância da reforma para a expansão da obra missionária no mundo, usando como amostra visível o exemplo da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) e da Igreja Presbiteriana da Guiné-Bissau (IPGB).

A IPB, que segue a teologia da reforma, tem se destacado nos últimos anos como uma igreja enviadora de muitos missionários para o mundo através da sua agência oficial. A Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT), atualmente, conta com mais de 240 missionários em suas fileiras, atuando em mais de 40 países, sem contar os inúmeros missionários que estão em preparação, e os obreiros autóctones que estão em plena atividade.

Um fruto direto dessa expansão missionária da APMT/IPB é a fundação da IPGB, que completa 23 anos em 2020. Apesar de ser ainda uma igreja jovem, a IPGB tem se destacado na Guiné-Bissau como uma igreja de origem reformada, que cresce de forma bíblica, atuante e vibrante. Uma característica que a tem destacado é sua forte ênfase na pregação da Palavra de Deus com conteúdo bíblico, prático e contextualizado.

Concluímos dizendo o seguinte: a Reforma foi um movimento de volta para a Bíblia e para a sua proclamação; foi um movimento de volta para o evangelho de Cristo e para a proclamação fiel deste evangelho. O movimento reformado, e consequentemente as igrejas reformadas, cresceu e se expandiu pela bênção de Deus e pelo trabalho dedicado de homens e mulheres que se entregaram a Cristo e a sua causa no mundo.

A existência e crescimento da IPB e da IPGB, e de outras igrejas reformadas nos 5 continentes, realça a contribuição da Reforma para o avanço da obra missionária no mundo. Como herdeiros desse movimento, colhemos os seus frutos 5 séculos depois e somos responsáveis por passá-lo adiante com a graça de Deus. Celebremos os 503 anos da Reforma e continuemos na vanguarda, não somente da teologia, mas do legado missionário advindo da Reforma Protestante do Século XVI. “Soli Deo gloria”.

Paulo Serafim de Souza

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