Skip to content

A reforma da vida e a missão da Igreja

Precisamos compreender as raízes da crise que afeta a sociedade moderna em geral e, especificamente, a sociedade Europeia. Essa compreensão é positiva, pois de um lado permite identificar melhor os desmandos causados pela falta de ética e, de outro lado, suscita uma reação salutar que explicita valores éticos a serem buscados na atividade política, econômica, social, familiar e, mesmo sem grandes expressões, na vida da Igreja Francesa, que também se identificou tremendamente com a cultura moderna e pós-moderna. Na verdade, aqui no velho continente, vive-se uma cultura pós-cristã, cujos desafios são ainda maiores.

A DIGNIDADE DO HOMEM REGENERADO

Quando lemos sobre a visão que Calvino tinha acerca da Igreja de Cristo e de seu papel na sociedade, constatamos que para o reformador genebrino a Igreja devia ser capaz de promover a dignidade humana. Pela ação regeneradora do Espírito Santo, o homem recebe o dom de Jesus Cristo, é inserido no Corpo místico de Cristo, mas tam- bém é devolvido ao mundo, como novo homem, a fim de cumprir sua vocação, proclamando o evangelho do Reino. Para Calvino não existia separação entre a fé e a prática cristã. Sua visão era integral acerca da vida cristã. Depreendemos daí sua importância para os nossos dias. Para o reformador, a nova vida em Jesus Cristo é explicitada na vida social e cultural, pois a vida é única como espelho da glória de Deus em Sua própria criação. 

A IGREJA REFORMADA ESTÁ SEMPRE SE REFORMANDO

Logo após a Reforma, foi cunhada a célebre frase Ecclesia reformata et semper reformanda est – A Igreja reformada está sempre se reformando. Essa precisa ser a tônica da Igreja atual frente a tantos e urgentes desafios, que exigem dela uma postura cada vez mais adequada aos novos tempos, mas, ao mesmo tempo, sem que abra mão de seus pressupostos bíblico-reformados.

No entanto, há certo paradoxo protestante, ou seja, a Reforma do Século XVI nasceu com a proposta de contestação, de mudanças radicais nas bases da fé cristã, apresentando-se como revolucionária e libertadora, como uma via alternativa, o que de fato aconteceu, mas, com o passar do tempo, sofre com o perigo, sempre iminente, de um tradicionalismo rígido, extremamente conservador, paralisante, de uma vida meramente religiosa, de uma mimética confessionalidade, completamente desassociada de uma vida cristã intramundana, onde a reforma da fé reforma a vida pessoal, comunitária, social, política, moral, ética e educacional.

Sendo assim, podemos afirmar que a Reforma Protestante produziu alguns pressupostos teológicos que devem continuar norteando a caminhada da Igreja na história. São os chamados pilares da Reforma através dos cinco Solas. Nesta pequena reflexão, veremos dois deles.

O PODER DO EVANGELHO NA TRANSFORMAÇÃO HUMANA

A supremacia das Escrituras (Sola Scriptura) ou somente a Escritura: A Palavra de Deus se tornou o referencial da existência humana. A Bíblia estava esquecida. Houve uma volta à Palavra. Antes, a tradição superava as Escrituras, agora não podia ser mais assim para os reformadores. O povo passou a ter acesso à leitura da Bíblia.

Em outras palavras, a poderosa obra do Espírito Santo na dinâmica da vida cristã pessoal jamais pode estar separada das Escrituras. Cremos que à parte da Palavra de Deus nunca teríamos conhecimento da obra redentora de Deus em Jesus Cristo, manifestação inequívoca de sua maravilhosa graça. A Escritura Sagrada é o critério de nossa experiência espiritual e não a experiência desassociada da Palavra.

Somente a Escritura é fonte da revelação divina e escrita de Deus, suficientemente capaz para transformar o coração do homem, empedernido pelo pecado. Ela é suficiente para compreensão de toda a obra da redenção e de um viver cristão na presença de Deus, pela ação do Espírito que a inspirou e a aplica em nossos corações.

Portanto, uma igreja pautada na Palavra de Deus há de ser a diferença na sociedade que a cerca e há de promover as transformações necessárias no mundo, pela vida e pelo anúncio do Evangelho, da Palavra genuína de Deus.

Jamais poderemos considerar o Evangelho e seu anúncio como sendo algo a atingir partes do ser humano. Ao contrário, a liberdade promovida pelo Evangelho é profunda e integral. Em que sentido? Profunda porque liberta o homem de si mesmo, de seu egoísmo, de sua auto independência e de toda sorte de superstições. A sociedade europeia tem rejeitado o cristianismo e o seu Deus, mas continua extremamente supersticiosa e mística. Integral porque liberta o homem para a entrega radical de sua vida a Cristo, para o outro, para o amor-serviço, para um novo relacionamento com o Criador e a criação, alterando seu ethos existencial. Essa liberdade profunda e integral é operada pelo Espírito Santo, pois no espaço da ação do Espírito a liberdade se concretiza (2 Co 3.17).

Assim, a afirmação da fé cristã de que Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos e de que sua morte na cruz tornou-se o único e definitivo sacrifício para a obra da redenção humana é, na verdade, a afirmação fundante da fé, daquilo que é absolutamente essencial à nossa salvação. Jesus Cristo é o único mediador entre Deus e os homens, tornando-se, segundo a teologia bíblica, nossa reconciliação. Na linguagem paulina, “ele é a nossa paz” (Ef 2.14).

JESUS CRISTO COMO ÚNICA FONTE DE SALVAÇÃO

A Supremacia de Cristo (Solus Christus). Em outras palavras, segundo a linguagem reformada, trata-se do “solus christus”, (salvação somente em Cristo), que declara que a nossa salvação tem início e fim na pessoa e na obra expiatória de Jesus Cristo na Cruz, sendo Ele o Cordeiro sem pecado, cuja morte nos outorgou a justificação pela fé.

Esse é o genuíno evangelho que salva e transforma a vida do pecador, que está separado de Deus, morto em seu pecado (Ef 2. 1,5,11). Alcançados e transformados por esse evangelho, somos desafiados a vivê-lo intensamente para a glória de Deus, na ação e no poder do Espírito Santo, que aplica a obra redentora em nossas vidas, dando-nos uma nova vida (2 Cor 5.17).

O EVANGELHO, A IGREJA E SUA MISSÃO

Por outro lado, o evangelho que nos transforma precisa ser anunciado, proclamado. Somos o povo que Deus constituiu para proclamar o Cristo vivo e ressurreto. Portanto, a missão da Igreja nasce da própria missão de Deus. Sendo assim, ela é chamada e enviada por Deus ao mundo, motivo pelo qual ela é apostólica. Assim, a Igreja não foi constituída apenas para cantar belos hinos, ouvir corais e belas mensagens, assentar-se em bancos de belos templos. Não, a Igreja foi chamada e enviada para envolver-se com os homens, estejam onde estiverem, visando a alcançá-los pelo evangelho.

Bom é saber que a Igreja é o resultado e ao mesmo tempo uma participante da missão de Deus. Nós somos ao mesmo tempo consequência e cooperadores de Deus no processo de estabelecer o Seu Reino entre os homens. Assim, a missão da Igreja é essencialmente a sua participação no processo redentivo que Deus está executando na História. Em outras palavras, a missão da Igreja é cumprir a missão de Deus.

A tarefa precípua da Igreja – a proclamação, o anúncio e o testemunho da Boa Nova de salvação em Jesus Cristo – só terá verdadeiro significado e resultado no mundo em que vivemos quando realizada em consonância com a palavra do Cristo ressuscitado que disse: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (João 20.21). A Igreja é chamada e enviada a anunciar o Evangelho assim como Ele – Jesus – anunciou, como enviado do Pai. E mais. Logo depois Jesus falou: “Recebei o Espírito Santo” (João 20.22). A eficácia da Missão está no fato de que a Igreja reflete a imagem de Cristo no poder do Espírito Santo. Como o Pai se revelou ao mundo através do Filho, assim o Filho deve ser reproduzido através de cada discípulo no poder do Espírito. Em outras palavras, uma igreja missionária é aquela que vive, proclama, testemunha e compartilha a obra redentora de Deus através de Jesus Cristo.

A nossa missão enquanto Igreja do Senhor Jesus é testemunhar e apresentar a salvação eterna através daquele que é o único capaz de salvar o homem perdido – Jesus Cristo, e isso unicamente pela graça, mediante a fé. Nesse sentido, a natureza missionária da Igreja é redescoberta e praticada no poder do Espírito. “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8.32). Jesus Cristo é o Logos Encarnado, a Palavra Viva de Deus que comunica vida e liberdade, no poder do Espírito, para o cumprimento da missão de cada um e de seu povo.

Rev. Marcos Azevedo

Compartilhe esta postagem

Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Share on telegram
Share on email
Share on print

Últimas postagens

Arquivo

Arquivos

Você pode contribuir para o Evangelho a qualquer momento com sua oferta.
Informativo