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A graça que salva, a graça que serve

Um dos perigos da vida cristã, e especialmente da caminhada missionária, é o de compreender a graça, ou seja, aquele favor imerecido de Deus para com pecadores indignos, como sendo algo pertencente somente ao início de nossa vida com Deus, ou seja, a nossa salvação. Para muitos cristãos hoje, é como se tivéssemos sido “salvos pela graça”, mas que tal “graça” não nos acompanha mais em nosso serviço a Ele. Para eles, a graça é apenas um conceito estático, confinado somente a apertar um botão de “start” em nossa vida cristã, e o que vem depois é, com certeza, fruto da habilidade e competência de cada “jogador”.

Será que esse conceito de uma graça estática, confinada e simplesmente “inicial” condiz com o conceito de graça expresso nas Sagradas Escrituras? Creio que não, e te convido a refletir sobre esse conceito tão importante do cristianismo a partir da exposição das palavras de Paulo em Romanos 1.5, não somente para tentar libertar a graça do cativeiro do “início somente” (quase que como um novo “sola” da reforma), mas por crer que a compreensão da graça como expressa nas escrituras pode remodelar a nossa vida e missão, fazendo-nos “glorificar a Deus e gozá-lo eternamente”. Paulo, em sua saudação aos crentes de Roma, escreve assim:

“Por meio dele, e por causa de seu nome, recebemos graça e apostolado para chamar dentre todas as nações um povo para a obediência que vem pela fé” (Rm 1.5)

Para que compreendamos com profundidade essas Palavras de Paulo, faz-se necessário lembrar e refletir um pouco sobre os versos anteriores, uma vez que neles entendemos a quem se referem as palavras “por meio dele” (início do versículo 5 citado acima). Nos versículos 2-4, o apóstolo apresenta um resumo daquilo que seria o grande tema de sua epístola, a saber: o evangelho de Deus. Para Paulo, esse evangelho “prometido de antemão por meio dos profetas nas Escrituras” (v.2) diz respeito à pessoa e a obra de Jesus Cristo, aquele que ‘como homem era descendente de Davi’, mas que por meio do Espírito “foi declarado filho de Deus com poder”.

As palavras “por meio dele”, portanto, se referem a esse Jesus, verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus, que viveu, morreu e ressuscitou por nós, constituindo-se assim Senhor sobre todo o seu povo. É por meio dele, e “por causa de seu nome” que tudo mudou na vida de Paulo e que tudo muda em nossas vidas. Não existe salvação, ministério e missão separados da pessoa e obra de Jesus Cristo. Sem Ele nada somos e nada podemos fazer, Ele é o princípio, o meio e o fim de toda a nossa existência.

Na continuação do texto encontramos as seguintes palavras: “recebemos a graça e o apostolado”. Uma leitura rápida do texto pode nos levar à compreensão de que Paulo fala aqui de duas coisas distintas, ou seja, que a graça e o apostolado seriam dois conceitos desconectados. No entanto, como veremos, ao utilizar uma figura de linguagem, Paulo nos apresenta um apostolado que é fruto da graça.

Grandes homens de Deus do passado, tais como Ambrósio e João Calvino, compreenderam esse texto como escrito à luz de uma figura de linguagem chamada “hendíadis”. Segundo Hendriksen, uma “hendíadis” é quando “um conceito é expresso por meio de dois substantivos conectados por ‘e’”. Ou seja, o que Paulo apresenta aqui não é uma graça distinta do apostolado, antes uma graça que qualifica, molda e transforma o apostolado.

Ao comentar esse verso, o grande reformador João Calvino afirma:

“Ao falar assim, ele (Paulo) deixa implícito que sua designação para tão sublime ofício era totalmente obra do favor divino, e não de seus próprios méritos. Ainda que aos olhos do mundo seu ofício não aparentasse nada senão perigo, fadiga, ódio e desgraça, todavia, aos olhos de Deus e de seus santos, ele não possui virtude comum nem ordinária e deve, portanto, ser atribuído imerecidamente à graça.”

Essa visão de “graça” é completamente distinta daquela estática e confinada ao “início” de muitos cristãos de hoje em dia. A graça nas escrituras não apenas nos salva, mas nos dá um ministério e nos capacita a exercê-lo (no caso de Paulo o apostolado). Devemos restaurar com urgência a verdade bíblica que o nosso “demérito” também nos acompanha em nosso serviço e missão, e que destituídos da graça nada podemos fazer para Deus. Essa visão da graça nos humilha ao mesmo tempo que exalta a Deus, ela nos afasta do “engrandecimento de egos” e dos “holofotes” que tanto nos tentam, e nos leva aos pés da cruz, para que nela venhamos obter força e coragem para mais um dia de labor na seara do Senhor.

Somente com essa “visão da graça” fincada em nossos corações é que poderemos dar os passos necessários para o cumprimento do objetivo de nossa vocação, a saber: “chamar dentre todas as nações um povo para a obediência que vem pela fé”. Que palavras belas e desafiadoras. A graça que salva e serve nos levará a participar da grande missão de Deus, que está reunindo para si mesmo um povo proveniente de todas as nações.

Paulo trabalha suas palavras aqui com a precisão de um ourives, desenhando a bela missão dada por Deus aos seus servos. Devemos “chamar dentre todas as nações”; nas escrituras a extensão da missão sempre foi “todos os povos”. Ao diferenciarmos um povo de outro, etiquetando-os como mais importantes dentro da “estratégia missionária da igreja”, esvaziamos a beleza da missão que nos foi dada. Devemos trabalhar para que todos os povos o louvem, para que todas as línguas o confessem, mas não podemos tomar as diretrizes da missão para nós mesmos: é Deus quem chama, é Deus quem direciona, pois ele é quem nos salva e quem nos faz servir.

Essa pluralidade de nações é contrastada por Paulo com a singularidade do resultado da missão. Chamamos os eleitos “dentre todas as nações”, mas devemos recordar que Deus está constituindo para si um único povo. A igreja, o corpo e a noiva de Cristo são o resultado sublime da pregação do evangelho a todos os povos. Não a igreja visível, por vezes marcada por escândalos e pecados, mas aquela invisível, universal, perfeita e sem mácula, unida na diversidade pelo sangue do cordeiro que a comprou. Esse povo vive sob a regência da “obediência da fé” se submetendo alegremente ao Senhorio de Cristo mediante sua Palavra.

Que esse verso das Escrituras fomente em nossos corações uma visão correta acerca da graça de Deus, aquele doce e inefável favor imerecido que não apenas nos salva, mas também que nos leva a servi-lo através da vocação que ele nos deu. Que os eleitos provenientes das mais distintas nações da terra possam ser reunidos sob um único governante, o Cristo Rei, constituindo assim um único povo e cumprindo a mais sublime das promessas: “eles serão o meu povo e eu serei o Seu Deus” (Jr.32.38).

Rev. Gabriel Neubarth

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