Simonton e o Ebola


O que Ashbel Green Simonton, o missionário presbiteriano pioneiro da evangelização em terras brasileiras, que chegou aqui em 12 de agosto de 1859 tem a ver com o Ebola, doença mortal que tem afetado alguns países da África Ocidental, como Guiné Conakry, Serra Leoa e Libéria tem em comum, pois ambos estão separados historicamente 155 anos? Quando Simonton chegou em solo brasileiro não havia Ebola, mas outra doença, também mortal na época, que ceifou a vida de vários brasileiros e de alguns missionários, inclusive a sua, dia 09 de dezembro de 1867, aos 34 anos.

Apesar disso, as igrejas e as famílias presbiterianas da América não deixaram de enviar seus filhos para o Brasil, que naquele período, tinha condições de saúde, higiene, educação e infraestrutura precárias como os países afetados pelo Ebola atualmente. Acho louvável a preocupação das igrejas, das famílias, dos amigos, dos parceiros e das agências missionárias com o bem estar de seus missionários, principalmente porque hoje não há mais lugar para irresponsabilidades a título de heroísmo missionário, sacrificando e expondo a família missionária a sofrimentos desnecessários e traumáticos.

Por outro lado, não podemos deixar de fazer a obra de Deus, mesmo que ao fazê-la, sejamos expostos as riscos de doenças, guerras, desastres naturais e perseguição. Jesus foi cuspido, escarnecido, espancado e morto por causa da obra de Deus. O apóstolo Paulo, conhecemos bem todos os sofrimentos relatado por ele mesmo por causa da obra de Deus em 2 Coríntios 11: chicotadas, fome, perseguição, naufrágio, abandono, entre outras coisas. Quantos outros missionários e cristãos de modo geral em todo o mundo não estão sofrendo hoje por causa da sua fé em Cristo e da sua disposição de levar o evangelho para àqueles que não o conhecem?

Somos missionários na Guiné-Bissau, África Ocidental, graças a Deus não temos nenhum caso oficialmente registrado de Ebola aqui, o foco da doença está no nosso vizinho, Guiné-Conakry e em outros dois países da região já mencionados no início deste artigo, além de outros países com casos isolados. Portanto, temos razoável tranquilidade para continuar realizando a obra de Deus nesta terra amada por ele e por nós.

Ao retornar para o campo, ficamos admirados positivamente com o empenho da população guineense a fim de que a doença não chegue em seus país. Há campanhas regulares de limpezas, fazendo com que o lixo das ruas seja recolhido e colocado em lugares estratégicos para que os caminhões o levem para um local adequado. Em todos os lugares públicos, inclusive nas nossas igrejas, há na entrada um balde com água misturada com água sanitária para que todos lavem as mãos. Encontramos também muitos cartazes informativos sobre a doença fixados em lugares visíveis pelos pedestres. Mas, o que mais me chamou à atenção foi a compreensão do favor de Deus sobre o país, principalmente o que os crentes sempre tem dito: “Deus tem protegido a nossa terra dessa terrível doença até aqui, pois ele sabe das nossas limitações estruturais”.

Diante dessas realidades podemos fazer as seguintes considerações:

  1. Como escrevi em “O Avanço da Obra Missionária”, Revista Alcance, página 9, primeiro trimestre de 2013: “A obra de Deus sempre foi e será feita à custa de muito suor, lágrimas e até sangue. Basta olharmos para a vida do apóstolo Paulo, para a vida de Simonton e, principalmente para a vida do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo para descobrirmos essa verdade”. Por isso, continuemos enviado missionários para todos os cantos do mundo, inclusive para as regiões afetadas por guerras, doenças, perseguição e desastres naturais, acompanhando e apoiando as famílias missionárias e resguardando a segurança delas, fazendo os deslocamentos necessários em ocasião oportuna.
  2. Que a nossa prudência não se torne em covardia e que a nossa ousadia não se torne em irresponsabilidade. Mantenhamos o equilíbrio para avaliar os riscos, fazer os ajustes necessários, mas não deixar de fazer aquilo para o qual fomos chamados: “fazer discípulos de Jesus de todos os povos da terra, plantar igrejas e demonstrar o amor de Deus através de atos de misericórdia e socorro aos menos desfavorecidos: construindo escolas, hospitais, orfanatos e alimentando os famintos.
  3. Ao surgir uma situação difícil em qualquer lugar do mundo, procuremos nos informar com mais profundidade da real situação para tomarmos decisões e emitirmos opiniões baseadas em argumentos sólidos e verdadeiros. As reportagens que vemos nos noticiários, nem sempre mostram toda a verdade dos fatos, pois seu maior objetivo é a audiência e a venda de jornais e revistas ou manter a população distraída dos reais problemas que afetam o seu dia a dia.
  4. Por fim, sejamos uma igreja que ora pelo avanço do evangelho no mundo, pela segurança dos missionários em situação de risco, pelos países afetados pelo Ebola, por guerras, pela pobreza e por todo tipo de opressão. Deus tem grandes coisas para fazer em nós em através de nós e, quando ele deseja realizar algo aqui na terra, sempre desperta sua igreja para orar por esse fim: “Invoca-me, e te responderei; anunciar-te-ei coisas grandes e ocultas, que não sabes” (Jeremias 33.3).

 

Por: Rev. Paulo Serafim, missionário da APMT em Guiné-Bissau, África Ocidental

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