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O caráter encarnacional da Igreja


 

Há muita propaganda e pouca identificação. Há muito turismo missionário e pouca inserção. A pergunta que devemos fazer é: “Como a igreja está realizando sua obra em nossos dias?” Conquanto haja uma avalanche de vozes buscando enfocar a obra missionária, a sua urgência e sua importância, é igualmente essencial que possamos avaliar a maneira como ela está sendo feita. Não basta apenas utilizarmos o marketing e a mídia para o anúncio das Boas Novas. A obra missionária é muito mais do que usar o “turismo missionário” para conhecer e manter trabalhos evangélicos em locais de difícil acesso nos interiores dos países.

A igreja de hoje tornou-se o reflexo da sociedade. A concepção de civilização ainda está baseada na visão de culturas e subculturas que se conflitam étnica e socialmente, desde os primórdios. Os povos ainda continuam a se enfrentar e a filosofia discriminatória é base da educação familiar das raças. No plano religioso, a igreja sucumbe diante da missão imperialista e a evangelização impositiva, reflexo desse estado atual de coisas. Com as melhores motivações possíveis, a Igreja Cristã ainda não conseguiu apagar a imagem misturada à do imperialismo ocidental do século dezenove sobre os povos pagãos de uma época primitiva.

Para que a missão aconteça, de fato, ela não pode ser feita sem as bases missiológicas que emergem da fiel interpretação da Palavra de Deus. Para que cumpramos nossa missão de acordo com o princípio encarnacional, temos necessidade de buscar uma teologia que expresse o verdadeiro conteúdo do Evangelho do Reino. Uma interpretação do Evangelho que seja equivocada gerará uma contextualização superficial. René Padilla discute a questão tratando da importância de se absorver, profundamente, não somente as consequências da salvação pela Cruz como também a sua ética. Ele afirma que “a cruz não é somente a negação da validade de todo o esforço do homem para ganhar o favor de Deus por meio das obras da lei; é também a exigência de um novo estilo de vida caracterizado pelo amor totalmente oposto a uma vida individualista, centralizada em ambições pessoais, indiferente frente às necessidades do próximo”.

Por isso mesmo vemos que há um déficit teológico na prática missionária da igreja que resulta em uma débil contextualização do Evangelho. O problema de uma fraca contextualização é a fraca reflexão missiológica entre nós. Embora a Reforma tenha restaurado a Escritura como Palavra de Deus, a igreja tem frequentemente usado superficialmente essa Palavra para entender e realizar a obra missionária. Logo, precisamos demasiadamente retornar a uma teologia de missão fiel à Palavra de Deus.

Se a Teologia da Cruz for diluída, as consequências serão uma evangelização nominal sem os resultados integrais do Evangelho do Rei- no. Valdir Steuernagel descreve essa questão com propriedade: “A nossa evangelização deve estar a serviço de um evangelho que afeta a pessoa toda em todas as áreas de sua vida. Isso quer dizer que o evangelho, em- bora seja pessoal, tem um forte colorido coletivo, é uma mensagem de conforto, mas pede um compromisso ético; desencadeia uma espiritu- alidade terapêutica e leva a um inequívoco pacto com a justiça; quanto mais estivermos a serviço desse evangelho integral, que afeta todas as áreas da vida, tanto mais estaremos a serviço do Deus Trino”.

A encarnação missionária está estreitamente ligada não so- mente à compreensão de uma teologia bíblica que exponha os valores da cruz e do evangelho, mas também é motivada pelo modelo apostólico de Cristo. A missão da igreja deve ser motivada pela missão encarnacional de Cristo. As bases textuais nos convencem disso quando afirmam: “As- sim como o Pai me enviou, eu também vos envio” e “assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (Jo 20.21; 17.18). Carlos del Pino também comenta: “Cristo, como o enviado do Pai, torna-se o mo- delo vivo para que a igreja realize sua missão. Há um modelo estabeleci- do aqui. Somos enviados como igreja, seguindo o padrão que o Pai usou para enviar a Jesus”. Esses textos auxiliam a igreja a compreender a sua missão, a abrir mão dos seus direitos, abdicando da situação estável, da tranquilidade, para escolher o modelo da encarnação messiânica.

É claramente comprovado que Cristo não somente se encarnou e viveu no mundo, em meio as suas vicissitudes, como também se envolveu com o sofrimento humano, buscando o homem pecador, destituído da glória de Deus, libertando-o das consequências da queda e conduzindo-o a uma reintegração objetiva no que diz respeito à verdadeira relação com Deus em todas as áreas da vida.

Portanto, a encarnação missionária da igreja não somente deve ser orientada pela identificação com Cristo e o envolvimento prático no mundo, como também precisa avaliar os contextos específicos em que o evangelho está sendo comunicado e vivido. Padilla acentua essa questão dizendo: “Para que o Evangelho não seja somente aceito intelectualmente, mas também vivido, ele necessariamente deverá tomar forma dentro de nosso próprio contexto cultural”. A intenção de Deus não é que o Evangelho se reduza a uma mensagem verbal, mas que se encarne na igreja e através dela na história. Quando adotamos um estilo de vida, pensamento e ação em que nossos próprios padrões culturais são transformados, aí então vivemos um evangelho encarnado.

Eis nosso grande desafio para estes últimos dias. Quando nos comprometemos com a missão encarnacional, manifestamos em plenitude nossa natureza missionária. Somos chamados a uma auto-avaliação de nossos níveis de encarnação para que vivamos verdadeiramente nossa missão, impactando a sociedade e manifestando a glória de Deus e sua presença no contexto em que vivemos.

Fontes:
René Padilla, Missão Integral, Temática publicações, 1992. Valdir Steuernagel, A Grande Comissão: vamos lê-la de novo, em: A missão da Igreja, Missão editora, 1994.
Carlos del Pino, O apostolado de Cristo e a missão da Igreja, em Fides Reformata, vol 5 n. 1, cpgaJ, 2000.
David Bosch, Witness to the World, John Knox press, 1980.

 

Rev. Luiz Augusto Bueno

luizbueno65@gmail.com

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