Missionário também “é gente”


por O.F. - Missionários no Golfo Pérsico

 

A igreja é uma comunidade de “gente” como a “gente”. Pessoas como eu e você. Algumas pessoas maduras outras mais fracas e carentes. O que nos faz Igreja é a pessoa de Cristo. Ele se deu por Sua noiva morrendo na cruz e é Ele mesmo que cuida dela e a alimenta. Quando entendemos isso, percebemos que todas as pessoas da Igreja são “gente” e nessa qualificação, carentes de amor e comunhão.

Muitas vezes, a Igreja tem a tendência de separar alguns irmãos dando a eles um patamar elevado dentro do Reino, esquecendo-se que no fundo de tudo eles são “gente”. Com isso, pensamos que o pastor, por ser pastor, não sofre com momentos de tristeza ou lutas. Assim também qualificamos o missionário como sendo um “super-heroi” da fé esquecendo-nos que ele não está imune de momentos de sofrimento.

Quando entendemos o conceito de que todos nós somos “gente”, facilita bem mais o relacionamento da igreja com o seu pastor, com seus líderes e com os seus missionários.

Lembro-me bem quando comecei minha preparação missionária, em que as exigências para se aprender tudo, o mais rápido possível, sobrevinham como uma pressão sobre nós. Preparo transcultural, aprendizado da Língua Inglesa, aprendizado da Língua Árabe, adaptação cultural, etc. Com tanta pressão, quando chegamos no estágio do aprendizado da Lingua Árabe, estávamos quebrados emocionalmente.

Recordo-me de chegar um dia em casa, e em lágrimas dizer a minha esposa que não gostaria de ver ninguém e nem queria muita conversa com ela. Depois de uma hora, alguém bateu em nossa porta. Eu gritei do meu quarto, “não atenda, meu amor”. A pessoa do lado de fora insistiu e continuou batendo na porta. Minha esposa olhou pelo olho magico e me disse que era um membro do nosso grupo secreto. Eu reafirmei a ela que não atendesse a porta, pois eu não estava nos meus melhores dias para conversa. Aquele irmão não desistiu e, depois de mais de 20 minutos, atendemos a porta. O rapaz entrou em nosso apartamento de forma espantosa e logo disse que não podia ficar muito porque estava a caminho do trabalho. Eu pensei comigo, que benção ele não ter muito tempo, pois afinal de contas não estou bem hoje. Ele continuou dizendo que ao acordar para orar, sentiu um forte desejo no seu coração de passar em nossa casa para dizer algumas palavras. Então ele disse: “eu só passei aqui para dizer que vocês são muito especiais para mim e para minha família. Temos sido muito abençoados com sua presença aqui e queria passar só para agradecer seu carinho por nós. Não desistam não! Deus vai dar a vitória a vocês.” Eu pensei comigo: como esse irmão sabe o que eu estou passando? Como ele sabia que eu precisava muito ouvir isso? Não demorou muito para cairmos em lágrimas e todos, abraçados, agradecermos ao Pai por sua fidelidade. Aquele irmão trouxe tudo o que eu precisava. Não um sermão ou uma exortação (o que e necessário algumas vezes), mas um abraço, choro, um carinho. Por isso que o autor de Hebreus já nos alertou “não deixemos de congregar-nos, como é o costume de alguns...” (Hebreus 10.25a). Como é restauradora a comunhão dos irmãos.

Outra experiência marcante que tivemos foi de um jovem aqui do Oriente Médio que se converteu através da Internet. Esse jovem ficou quase três anos em comunhão com irmãos através da Internet. No entanto, um dia Deus providenciou um encontro entre nós. Quando nos encontramos, sem muitas palavras, aquele jovem com um choro compulsivo me abraçou por 20 minutos, dizendo no meu ouvido “você é o primeiro irmão que encontro pessoalmente”. Quanta emoção para aquele rapaz, poder agora ter uma comunhão visível com alguém da sua mesma fé. Por quase três anos ele esperou por esse momento.

Comunhão é uma expressão da nossa dependência uns dos outros. Não somos ilhas, fomos criados para termos comunhão. Todos precisamos de comunhão, incluindo os missionários, porque, afinal de contas, missionário também é “gente”.

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