Há evangelismo na Europa?


Então porque não há conversão em massa?

 

Sou muito grato a Deus por ter tido a experiência, ainda no Brasil, de iniciar a plantação de duas Igrejas Presbiterianas; como me recordo com alegria das primeiras pessoas passando a frequentar os cultos e dos primeiros batismos e profissões de fé. Também agradeço a Deus pela oportunidade que tive, já na Espanha, de conhecer o jovem Aziz, turco de família muçulmana que esteve pela primeira vez em um culto aceitando um convite meu; atualmente, me alegra poder ser convidado por Diego e sua esposa Maria, espanhóis, e poder responder suas perguntas sobre a Bíblia e sobre a Igreja Presbiteriana.

Durante meu ministério, algumas pessoas vieram a Cristo; outras, todavia, ainda não confessaram a Jesus como Redentor. Naturalmente surge a pergunta: com respeito àqueles que ainda não receberam ao Senhor, será que houve falha no meu “evangelismo”? Essa pergunta e similares nos perseguem dia e noite. Muitos “missionários” são fiéis ao Senhor, exercem o ministério com esmero e dedicação e mesmo assim, não há o tão esperado “resultado”; essa realidade é bem conhecida aqui no continente europeu, campo eminentemente secularizado. Em um livro lançado recentemente, William Craig, um cristão norte-americano e uma dos maiores apologetas da atualidade, mostrando o quanto o secularismo tem trazido dificuldades aos missionários, escreveu que “a Europa ocidental se tornou uma sociedade tão secularizada que é difícil até mesmo uma chance justa de ser ouvido. Em consequência disso, missionários precisam trabalhar anos a fio para ganhar meia dúzia de convertidos por lá. Depois de ter vivido na Europa por 13 anos, em quatro países, posso dar meu testemunho pessoal do quanto é difícil às pessoas dali responder à mensagem de Cristo[1]”.

Essa escassez de conversões tem trazido dificuldades aos missionários que atuam na Europa; frases como “a Europa não deve mais ser alvo de envio de missionários porque não há conversões” ou “não se deve investir dinheiro e nem enviar missionários na Europa para tão poucos resultados” são comuns quando se discute o envio de missionários e onde investir recursos pessoais e financeiros. Mas essas frases refletem a correta definição de “Evangelismo”? Devemos analisar um evangelismo “bem sucedido” pelos resultados obtidos, como assevera o Movimento de Crescimento de Igrejas de Donald MacGavran?

Primeiramente precisamos definir o que é “Evangelismo”: propagação das boas novas (Lc 1.19; 1 Ts 3.6); evangelizar é tornar o Evangelho conhecido; é o meio ordinário pelo qual Deus chama o eleito à fé salvadora (Atos 16.14; 30-32). O Pacto de Lausanne define evangelismo como “difundir as boas novas de que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou segundo as Escrituras, e de que, como Senhor e Rei, ele agora oferece o perdão dos pecados e o dom libertador do Espírito a todos os que se arrependem e creem”. No entendimento de David Bosch, evangelizar é “proclamar a salvação em Cristo aos que não creem Nele, que são chamados ao arrependimento e à conversão e a quem é anunciado o perdão dos pecados e se lhes convida a serem membros vivos da Igreja de Cristo, iniciando assim uma vida de serviço ao próximo no poder do Espírito Santo[2]”; uma definição bíblica do termo em questão não deve pressupor resultados, pois “evangelizar” independe do mesmo. O renomado missiólogo ainda afirma que evangelizar é convocar as pessoas a participar de algo que Deus já fez, continua fazendo e fará definitivamente na consumação, que é a inauguração do reino de Deus mediante a encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo; por isso, não se pode “definir evangelismo em termo de seus resultados ou sua eficácia, como se ele apenas tivesse ocorrido onde há conversos; dever-se-ia, antes, entender o evangelismo em termos de sua natureza, como mediador da boa nova do amor de Deus em Cristo que transforma a vida, proclamando, pela palavra e pela ação, que Cristo nos libertou[3].

Mas o problema começa quando associamos “Evangelismo” com “ganhar convertidos”. Na Bíblia, evangelizar não é sinônimo de “ganhar convertidos”; vejamos um exemplo, Atos 8.25, 40: “Tendo eles, pois, testificado e falado a palavra do Senhor, voltaram para Jerusalém e em muitas aldeias dos samaritanos anunciaram o evangelho”; E Filipe se achou em Azoto e, indo passando, anunciava o evangelho em todas as cidades, até que chegou a Cesaréia”. Quantas pessoas que ouviram foram convertidas? Houve o estabelecimento de uma Igreja nessa região após a pregação? Há alguma carta no Novo testamento dirigida aos cristãos “Cesareianos”? O conteúdo da pregação foi “a palavra do Senhor” e não houve negligencia por parte dos apóstolos Pedro e Joao; eles não foram repreendidos pelo Senhor pelo fato de os ouvintes não terem crido, ou porque não nasceu ali uma Igreja, “porque para Deus somos o bom perfume de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem (2 Co 2.15, grifo acrescentado).

Em Atos 17, em seu discurso no Areópago (Atenas é uma cidade europeia), embora Dionísio, Damaris e outros homens creram, a grande maioria escarneceu e zombou de Paulo e de sua pregação. A questão é: Paulo foi fiel em seu “Evangelismo”? Sim, mesmo que muitos não creram. “Evangelizar”, segundo a Bíblia, não significa “ganhar convertidos” e sim anunciar com fidelidade as boas novas (2 Co 5.19,20). Como afirmou J. I. Packer, “a maneira de dizer se de fato, voce está evangelizando, não é perguntar se tem existido conversoes resultantes de seu testemunho. É perguntar se voce está, fielmente, tornando a mensagem do Evangelho conhecida[4]”. Embora a meta principal do evangelismo seja a conversao dos ouvintes e que o “missionário” deve orar e trabalhar tendo em mente esse objetivo, um missionário nao é melhor que outro pelo número de conversoes, desde que os estejam exercendo seus ministérios com dedicaçao e esmero.

Se Paulo e Filipe vivessem hoje, Paulo seria o “missionário” famoso, conhecido e com sua agenda repleta de convites, enquanto Filipe teria mais dificuldade em divulgar seu ministério e buscar investimentos, pois o ser humano é atraído pelo resultado visível. O que precisamos entender biblicamente é que os dois cumpriram seus respectivos ministérios e ambos foram aprovados por Deus. O que houve é que Deus, na Sua Soberania, estabeleceu que para Paulo houvesse mais resultados, mas em nenhum momento Filipe deixou de ser valorizado pelo Senhor.

Nesses tempos difíceis, onde o missionário tende a ser mais valorizado de acordo com o número de convertidos e onde o local onde haja mais conversões é exatamente o local que atrai mais a atenção da Igreja, gostaria de propor uma reflexão em nível de conclusão:

Aqui na Europa, resultados visíveis são mais raros; nao conheço nenhum missionário por aqui que esteja “de férias” ou passeando; há uma variedade de estratégias por parte dos missionários que vão desde artesanato a escolas de futebol. Essas pessoas precisam ser amadas e valorizadas, pois estão “Evangelizando”, ou seja, anunciando as boas novas (2 Co 5.19); é necessário redescobrir urgentemente a definição bíblica de “Evangelismo” para não incorrermos em injustiças. Europa necessita tanto de investimento quanto África, América, Ásia, Oceania e Antártida. A Igreja brasileira necessita olhar a Europa tendo em mente o que significa “evangelizar”: anunciar as boas novas, independente do resultado. Necessitamos de Igrejas locais engajadas em orar e investir para alcance de milhões de pessoas que sequer sabem que existe outra “Igreja” além da Igreja Católica, como bem afirma o Pacto de Lausanne: a evangelização mundial requer que a igreja inteira leve o evangelho integral ao mundo todo”. O continente europeu, a luz das Escrituras, deve continuar sendo alvo das orações e do envio de missionários por parte da Igreja Presbiteriana do Brasil.

Espero um dia ver Diego e Maria professando sua fé, assim como muitos a quem testemunhei; mas até lá, busco exercer o ministério que Deus me confiou, sabendo que o fundamento do Evangelismo é o anúncio das boas novas independente do resultado. Como bem dizia um antigo professor de teologia: “trabalhamos no Departamento de Marketing do Reino de Deus; o resultado compete exclusivamente a Ele”.

 

Soli Deo Gloria

 

O Reverendo Janio Ciritelli é Bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas-SP e atua na Iglesia Evangélica Presbiteriana de España, juntamente com sua família, Mis. Lídia e seu filho Emanuel, na cidade de Don Benito.

 

 

[1] CRAIG, Willian L. Em Guarda: Defenda a fé crista com razao e precisao. Sao Paulo: Vida Nova, 2011, p. 18.

[2] BOSCH, David. Missao Transformadora. Sao Leopoldo, RS.: Sinodal, 2002. P. 14.

[3] Ibid. P. 493

[4] PACKER, J. I. Evangelism and the Sovereignty of God. InterVarsity Press, 1961, p. 141 apud STOTT, Jonh. A Missao Crista no Mundo Moderno. Viçosa, MG: Ultimato, 2010, p. 48.

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