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Cooperação na prática missionária


“Quando partir para Espanha irei ter convosco; pois espero que de passagem vos verei, e que para lá seja encaminhado por vós...” Rm 15.24

Escrevendo aos cristãos de Roma, Paulo apresenta a frutífera e dominante estratégia adotada em sua carreira missionária. Para ele, a missão de levar as boas novas a todos os povos é uma tarefa coletiva da Igreja. Não se trata de ação individual do tipo “minha missão”, “meu ministério”, ou “meu chamado”, comum em alguns círculos evangélicos. Não estou afirmando que Deus não usa iniciativas individuais, pois estaria negando a individualidade dos dons espirituais.

Entretanto, precisamos lembrar que a vida cristã é uma experiência coletiva. Assim é o culto dos salvos em Cristo, o cuidado mútuo no corpo; o partir do pão (Ceia do Senhor); a busca por solução para problemas enfrentados individual ou coletivamente pelos membros; a prática da oração, entre outros. O livro de Atos nos mostra diversas vezes a Igreja reunida em oração (At 1.14; 2.46, por exemplo). É importante frisar que quando a expressão da nossa fé acontece no contexto individual, seu objetivo e o engajamento e fortalecimento do corpo.

À luz da Sua Palavra, entendemos que os dons espirituais são o meio pelo qual Deus opera no mundo através do Corpo. Em quase todas as referências paulinas aos dons, fica claro que os mesmos são distribuídos gratuitamente pelo Espírito Santo – sem que a pessoa “faça por merecer” – para o beneficio do corpo, não do indivíduo. Visa ao crescimento e atuação em unidade. Em 1 Co 12, por exemplo, Paulo expressa o desejo de ver os irmãos em Corinto bem instruídos quanto aos dons espirituais (v.1). Mostra-nos que, apesar dos dons serem diversos, todos procedem de um só Espírito, que opera tudo em todos, visando também a um só corpo.

A unidade essencial existente no Deus Trino, o qual dispensa sobre a Igreja a diversidade dos dons, aponta igualmente para essa unidade. “Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito Santo é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos” (1Co 12.4-6). Paulo ilustra essa verdade usando o próprio corpo humano e sua diversidade de membros, em que cada um exerce função vital e especifica para o bem do todo (v. 12-26), “para que não haja divisão no corpo” (v. 25), ele enfatiza.

Em praticamente todas as menções paulinas aos dons espirituais, tais como Rm 12 e Ef 4, encontramos a clara noção de que os mesmos são concedidos pelo Espírito Santo para o bem do corpo. Em nenhum momento Paulo da a ideia de que são para a edificação de cada um individualmente, mas para o bem de todos e para a operação do corpo como organismo vivo e uno em Cristo. A compreensão dessa dinâmica da Igreja é vital para o alcance de todos os povos, línguas e etnias.

Com essa perspectiva, a APMT hoje se faz presente em todos os continentes, em quase 40 países, entre dezenas de grupos étnicos. Bases regionais são criadas para estreitar a cooperação no corpo para o avanço da obra. Onde quer que chegamos, buscamos identificar a existência de algum grupo cristão de orientação teológica reformada, tendo em mente basicamente três coisas: 1) Evitar edificar sobre fundamento alheio, numa linguagem mais contemporânea, o equivalente a “pescar em aquário”; 2) Reconhecer que esforços já estão sendo feitos visando ao alcance dos povos com o evangelho de Cristo; 3) Cooperar em projetos já em andamento ao passo que, em conjunto, novos esforços vão sendo feitos para o alcance de grupos não alcançados.

A Base da APMT para a região Austral da África – África do Sul, Angola, Botsuana, Lesoto, Moçambique, Namibia, Suazilandia, Zambia e Zimbabue – além de acompanhar projetos existentes na África do Sul, Angola e Moçambique, vêm explorando possibilidades de cooperação missionária em outros países da região.

Na África do Sul, uma parceria de trabalho missionário com a Igreja Presbiteriana do Kenilworth, na Cidade do Cabo, foi oficializada em 2009, dando sequência a atividades conjuntas que já vinham sendo desenvolvidas desde 2003. Nessa Igreja, missionários da APMT evangelizam, discipulam e assistem pastoral e socialmente famílias de refugiados. Embora as novas políticas de imigração adotadas pelo país tenham limitado o fluxo de novos refugiados, algumas famílias continuam sendo acompanhadas através dessa parceria.

Ainda na África do Sul, contatos com a Igreja Reformada (GKSA) que está em andamento, buscando estabelecer acordo de cooperação em projetos desenvolvidos na região por ambas as partes, sobretudo projetos de plantação de Igrejas em Angola e Moçambique.

Angola é um campo onde a APMT já atua há algum tempo. Nos últimos anos, uma parceria de cooperação missionária foi assinada com a IPA (Igreja Presbiteriana de Angola), fortalecendo ainda mais esse vínculo. Por muitos anos tem cooperado com a formação teológica de obreiros angolanos no STEL (Seminário Teológico Evangélico do Lubango), local de atuação do nosso missionário Rev. Romario Bendia.

Mais recentemente, passamos a cooperar com o Seminário Presbiteriano de Angola que fica na capital, Luanda. Com o apoio da APMT e da Confederação Nacional de Homens Presbiterianos da IPB, boas instalações foram construídas visando o treinamento de obreiros. Além do apoio na organização de sua grade curricular, a APMT também tem enviado professores voluntários para ministrarem aulas ali.

A parceria com a IPA contempla ainda um plano cooperativo para a plantação de dez novas Igrejas em Angola através de obreiros autóctones, sendo as cinco primeiras já em processó de plantação nas capitais das províncias do Bengo, Benguela, Bie, Huambo e Luanda Sul. As demais serão plantadas nas províncias do Malange, Moxico, Namibe, Uige e Zaire.

Em Moçambique, uma parceria assinada com a IPM (Igreja Presbiteriana de Moçambique) apresenta resultados visíveis, sobretudo nas áreas de preparação de obreiros leigos, educação infantil (professóres de crianças) e evangelismo e discipulado visando a plantação de Igrejas. Nossos missionários, Luciano Azevedo e Ligia Bordini, têm sido instrumentos nas mãos de Deus nesse processo.

Quanto aos próximos passos, visamos mais ações conjuntas na região, particularmente em Malaui e Namibia. O que precisamos? Pessoas dispostas a investirem suas vidas para que o Evangelho de Cristo continue cativando mentes e corações. Consequentemente, mais recursos financeiros serão necessários para auxiliarmos na construção de templos e escolas, bibliotecas, escolas de teologia e manutenção de obreiros (saúde, educação, moradia, alimentação, transporte, etc.). Tudo isso numa região assolada pela pobreza e por conflitos armados. Somente com o apoio de todo o Corpo, podemos fazer a missão de proclamar a salvação a nossa geração.

Paulo apela para a cooperação dos irmãos da Igreja que estava em Roma, a fim de que “o Corpo” chegasse à Espanha, e não somente ele, Paulo. O Corpo e, por natureza, agente de Deus no mundo. Ele tem caráter missional e não pode, jamais, fugir do seu caráter. Assim, a exemplo de Paulo, não podemos prescindir da cooperação de todo o Corpo para que o Evangelho chegue onde Cristo ainda não foi nomeado, isso e, onde o Corpo ainda não se acha estabelecido e onde não há testemunho efetivo do Evangelho de Cristo.

Talvez você se pergunte: sendo membro do Corpo de Cristo, como posso cooperar no avanço missionário mundial? O primeiro passo e se colocar, sem reservas, nas mãos de Deus com temor e tremor. Isso significa orar buscando direcionamento para a sua vida. Questione a si mesmo de que maneira sua vida pode ser usada para fortalecer o esforço missionário mundial. Tudo o mais será resultado desse ato de submissão.

Que Deus lhe de um coração sensível a Sua direção e disposto a obedece-lo, para o seu próprio bem, para que o Evangelho de Jesus Cristo continue trazendo luz onde reinam as trevas e para que o Nome que é superior a todos os nomes, seja glorificado entre todos os povos da Terra.

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