A missão ecológica da Igreja


por Rev. Paulo Serafim - Missionário em Guiné-Bissau

 

O tema da ecologia tem merecido destaque na agenda de políticos, empresários, cientistas, artistas e naturalistas do mundo todo, porém, no meio evangélico, só agora é que ouvimos algumas vozes nos chamando a atenção para esse importante assunto, não porque seja o assunto da moda, mas porque é totalmente bíblico.

Nós que conhecemos a Cristo, o criador e redentor do homem e de todo o universo, e que deveríamos estar na vanguarda da questão ecológica, pois ela é parte da missão que Deus confiou à humanidade e, principalmente, ao seu povo. Por isso, neste artigo, quero abordar algumas questões sobre a nossa missão de cuidar da criação de Deus como parte fundamental da nossa missão cristã.

A Escritura inicia e termina com a criação: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). “Vi novo céu e nova terra...” (Ap 21.1) É importante destacar que a palavra novo do grego “kainos” não significa novo no sentido de que nunca existiu, mas um novo com qualidades e aspectos diferentes. Isso significa que João viu a criação antiga redimida, sem a atuação de Satanás, da morte e do pecado. Antes de criar o homem, Deus criou um lugar para sua habitação e para que desfrutasse de um relacionamento íntimo com o seu Criador, com o seu próximo e com toda a criação.

Os três primeiros capítulos de Gênesis seguem esta ordem: no primeiro versículo do capitulo 1, vemos o tema geral da criação - Deus e o criador de todas as coisas; do verso 2 ao verso 25, vemos os detalhes dessa criação; dos versos 26 ao verso 3 do capítulo 2, vemos o tema geral da criação do homem e da mulher; dos versos 4 ao 25, vemos os detalhes da criação do primeiro casal. Já no capitulo 3, vemos registrados a entrada do pecado na história humana, suas consequências para o homem e para toda a criação e a promessa da redenção.

Por causa da desobediência, o homem trouxe pecado, morte e sofrimento para toda a raça humana e para toda a criação (Gn 3.17). Assim como os efeitos do pecado atingiram o homem e toda a criação de Deus. A obra de Jesus na cruz tem poder para eliminar os efeitos do pecado no homem e em toda a criação como afirmou Paulo em Cl 1. 19 e 20: “Porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus”. Sabemos que Deus é o autor da redenção do homem e da criação, todavia, ele compartilha essa missão conosco nos dando a benção de sermos partes integrantes do seu propósito redentor.

Além de ser o criador e redentor, Deus chama a nossa atenção para o fato de que ele é o dono da terra: “Eis e os céus e os céus dos céus são do SENHOR, teu Deus, a terra e tudo que nela há” (Dt 10.14). Tudo que existe pertence a Deus porque ele é o criador e dono de tudo, mesmo que a arrogância e ganância do homem pensem o contrário. Deus permite que moremos no seu mundo como inquilinos, todavia, prestaremos contas a ele pela maneira que usamos sua propriedade, pois fomos colocados no mundo como seus mordomos com a responsabilidade de cuidar bem da sua criação (Gn 2.15).

A teologia bíblica fala dos três mandatos que Deus como Rei deu ao homem: o mandato espiritual, que envolve o relacionamento do homem com Deus; o mandato social, que envolve o relacionamento do homem com o seu próximo; e o mandato cultural, que envolve o relacionamento do homem com a criação. “Era para o homem e a mulher exercitarem suas prerrogativas reais, governando sobre o cosmos, desenvolvendo-o e simultaneamente mantendo-o” (Van Groningen, Criação e Consumação, Volume I, p. 90). Todavia, esse governo do homem sobre a criação deve ser para o bem dela, para o bem do homem e, principalmente, para a glória de Deus.

O domínio que foi dado ao homem sobre a criação não significa exploração desenfreada e subjugação desumana e cruel, mas cuidado e proteção, a exemplo do próprio Deus que cuida e protege sua criação como vemos descrito no Salmo 145. “Governar e servir a criação e a primeira missão da humanidade sobre a terra e Deus jamais revogou este mandato” (Christopher Wright, A Missão do Povo de Deus, p.65). Pelo fato de sermos humanos e cristãos somos duplamente responsáveis para cuidar da criação como parte do nosso chamado para amar e obedecer a Deus.

Buscando o ponto de equilíbrio, devemos evitar dois extremos quando o assunto é cuidado com a criação: o extremo de diviniza-la, tratando-a de forma idólatra, como se ela tivesse força e poder em si mesma; e o extremo de despreza-la e trata-la como se ela não tivesse nenhum valor, esperando dela apenas a satisfação dos caprichos e ganância dos homens. Tanto um extremo quanto o outro ofendem o Criador. O primeiro rouba a gloria que só Deus merece e o segundo despreza a bondade de Deus demonstrada na sua criação.

Nossa motivação para cuidar da criação não é porque ela é divina; não é somente porque seremos prejudicados; não é porque é o tema do momento, nem porque é politicamente correto. Cuidamos da criação primeiramente porque ela é obra de Deus e tudo que ele criou é bom e merece o nosso respeito e cuidado. Em segundo lugar, cuidamos da criação porque somos mordomos das coisas de Deus, com o mandato de governar e cuidar da sua criação. Em terceiro, porque honra a Deus e nos beneficia. Em quarto, porque Cristo morreu para redimir toda a criação e, por fim, cuidar da natureza, ser ecologicamente responsável, faz parte da nossa missão como humanos e cristãos.

Uma das práticas danosas à criação de Deus na Guiné-Bissau é o costume das pessoas de jogarem sacolas plásticas no chão, aqui chamadas de “olhados”. Essa agressão à natureza, que não acontece só aqui, incomodava-nos muito logo que chegamos a esse campo missionário, pois ainda estávamos aprendendo a língua, a cultura e não sabíamos a melhor maneira de abordar essa questão. Nossas primeiras tentativas foram frustradas porque ainda não havia ensino bíblico suficiente para entendimento da questão, e reflexão sobre o assunto. Lembro-me de ouvir alguém falar o seguinte: “Não jogar olhado no chão, isso e coisa de branco”.

Deus nos deu força para mostrar que cuidar da criação não é coisa de branco, de estrangeiro, é coisa de humano, principalmente dos crentes. Começamos a ensinar os princípios bíblicos sobre mordomia cristã, enfatizando nossa responsabilidade de cuidar bem das coisas de Deus. Depois, quando havia programação na igreja que envolvia a distribuição dos famosos olhados com doces e material escolar, orientávamos as crianças que a sacola plástica deveria ser colocada nas lixeiras que foram colocadas em vários pontos da igreja: salas de aula, cozinha e pátio. Graças a Deus, já vemos uma melhor consciência ecológica entre os crentes em relação ao restante da população.

Louvo a Deus porque tem havido um despertamento para a responsabilidade ambiental no meio evangélico como parte integral do nosso conceito bíblico de missão. A agência “A Rocha”, uma agência cristã que trabalha com preservação ambiental, fundada em Portugal em 1983 e que atua hoje em todos os continentes, adota uma teologia que nos chama a atenção para consciência e ação ecológica como um mandato bíblico e parte fundamental da nossa missão cristã (www.arocha.org).

Soube também de uma boa iniciativa de uma das nossas igrejas parceiras: a Igreja Presbiteriana Nacional de Brasília. Seus pastores têm procurado incluir na sua visão de missão cristã o cuidado com a criação de Deus. Já conhecemos bem o grande envolvimento dessa igreja com a missão de Deus de alcançar todos os povos da terra com o evangelho. Agora temos visto seu pioneirismo na ênfase da missão ecológica da igreja. Sei que há estudos sistemáticos sobre o tema pelos seus pastores e por outros conhecedores do assunto, além de algumas iniciativas práticas sobre o cuidado com a criação de Deus. Espero que outras igrejas possam seguir o seu exemplo.

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