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A Miséria, o Messias e a Missão


Por Rev. Raimundo Montenegro Neto

 

Não é difícil compreendermos que o cumprimento da nossa missão transcultural de proclamação do Evangelho de Cristo implica vários desafios, tais como o aprendizado e a adaptação física cultural (idioma, costumes, alimentação, clima, etc.); a compreensão das condições de acesso (chegada, permanência, manutenção e saída) ao povo ao qual pretendemos servir; e também a recomendada avaliação do cenário geral da sociedade à qual nos dirigimos (aspectos sociais, políticos, econômicos, religiosos e as condições de cuidado com a saúde e intraestrutura, por exemplo).  

A partir do encontro redentor experimentado pelo endemoninhado geraseno com o nosso Senhor Jesus Cristo, vamos em busca não apenas de um modelo possível para a nossa atuação missionaria, mas também de uma convicção, uma motivação e de um proposito compatíveis com a revelação bíblica. Esta reflexão missiológica se divide em duas partes. Vamos rever a narrativa bíblica, buscando compreender o cenário espiritual onde se desenvolve a atuação missionaria.

 

A Manada da Montanha

Em Lucas 8.26-39 lemos que assim que Cristo e os seus discípulos desembarcaram do Mar da Galileia, na terra dos gerasenos, foi ao seu encontro um homem possuído por demônios que ha tempos vivia em condições animalescas, sem roupas e residência fixa, mas nos sepulcros. Ao ver o Filho de Deus, aquele homem o reconheceu de forma escandalosa e lhe rogou que não lhe perturbasse, pois Cristo havia ordenado ao espírito imundo que saísse daquele homem, o qual se tornava incontrolável sob tal influencia (versos 26 e 29).

Identificando-se como Legião, em resposta a pergunta do Senhor Jesus, os demônios lhe rogaram poder ir aos porcos que estavam num monte próximo, vizinho a um abismo, o que lhes foi concedido e que resultou na precipitação de toda a manada despenhadeiro abaixo, rumo ao mar, fato que espantou os porqueiros, os quais foram narrar o ocorrido na cidade e pelos campos (versos 30 a 34).

Tendo ouvido o relato, o povo foi verificar o ocorrido e se espantou ao ver o antigo endemoninhado em perfeita condição, aos pés de Cristo; o fato ocorrido foi confirmado por outras testemunhas, mas os gerasenos, amedrontados pelos relatos e o quadro visível do homem recuperado, rogaram ao Filho de Deus que se retirasse daquele lugar, pelo que Cristo voltou ao barco (versos 35 a 37).

O homem que fora curado por Cristo lhe pediu para segui-lo, mas o Senhor Jesus o despediu, dizendo que ele deveria voltar para sua casa e anunciar aos seus familiares o que Deus fizera por ele; então, aquele homem passou a anunciar por toda a cidade tudo o que Cristo lhe havia feito (versos 38 e 39).

 

A Miséria Manifesta

Esse relato bíblico e impressionante, não? Nele, vemos uma situação bastante incomum, começando com o comportamento e o estilo de vida desse homem conhecido apenas como o endemoninhado geraseno. O que essa narrativa nos ensina, e que não devemos nos esquecer, caso queiramos ser guiados pela Escritura Sagrada em nossa atuação missionaria?

Ao invés de reduzirmos a questão sobre a tensão espiritual existente no universo a uma batalha de fundo maniqueísta, de forcas espirituais antagônicas, o texto bíblico nos ensina que a realidade na qual vivemos e profundamente afetada e prejudicada,

em sua normalidade, pela consequência da rebelião da criação contra o seu Criador. Essa rebelião esta conscientemente presente tanto em anjos caídos quanto em seres humanos caídos, mas também no restante da criação, animada ou inanimada, enfim, toda a natureza esta sob os efeitos do pecado; e toda a criação sofre as suas consequências.

O endemoninhado geraseno era a encarnação da miséria humana sob as mais profundas forças opositoras a Deus, que lhe roubavam a dignidade, a sensatez, o respeito e ate mesmo a consciência. No entanto a reação da população a cura desse homem nos mostra que nem mesmo a ação redentora de Cristo produz nos demais reverencia respeito e louvor como resposta do coração.

Não vivemos em um mundo harmônico, justo ou inclusivo, antes somos seres caídos vivendo em um mundo rebelado contra Deus e convivendo com forcas conscientes e inconscientes que relutam a se render ao Soberano. Essas forcas ainda resistem em nos, cristãos, através dos seus efeitos em nossa carne, mente, paixões e decisões; elas são dominantes naqueles que ainda não tem uma nova natureza, sendo a prisão perpetua da rebelião sem chance de restauração nos anjos rebeldes (demônios); elas maculam, distorcem e afetam a harmonia no planeta azul, como um constante apelo a cidade celestial que nos aguarda. Essas forcas são a miséria resultante do pecado na criação.

 

O Messias Maravilhoso

Embora a realidade na qual vivemos esteja sob os efeitos da miséria do pecado, o texto bíblico comunica esperança a tarefa missionaria da Igreja, pois atuamos na contramão desse cenário, visto que devemos nos mover sob a convicção de que acima da existência esta Aquele que tudo revertera um dia a Sua gloria, que a tudo dirige para esse proposito final, entrando nesse cenário grotesco e revelando a beleza da manifestação da Sua gloria, graciosa, reconciliadora, redentora, regeneradora e renovadora.

Será que a experiência de cura do endemoninhado geraseno nos foi revelada com o exclusivo proposito de nos ensinar que tais tensões espirituais foram, tão somente, eventos históricos que serviram para evidenciar Jesus como Messias?

É verdade que comumente os demônios reconheciam Cristo rápida e publicamente (Mc 1.24), o que não e uma virtude em si, mas a confirmação incontestável da verdade (Tg 2.19) de que o Filho de Deus tem absoluto poder sobre todos os seres, homens e anjos, fieis e rebeldes (Mt 28.18; Cl 2.10). Certamente tais manifestações serviam para evidenciar a singular autoridade de Cristo como o Messias (Lc 4.18,19,33-37), no entanto, tal autoridade foi compartilhada em alguma medida aos apóstolos e discípulos missionários, responsáveis pela implantação do Cristianismo (Lc 10.9; Mt 17.16-18,21), ainda que não fosse na mesma medida, pois ainda neles era autoridade delegada.

Contudo, além desse papel confirmador de Jesus como o Messias, não se deve negar a influencia e o poder espiritual devastador atuantes no mundo sem Cristo, pois ainda que as formas de atuação malignas não precisem ser obrigatoriamente as mesmas, as finalidades continuam sendo manter nas trevas espirituais os pecadores sem Cristo (2Co 4.4,5), conservando-os mortos (1Jo 5.19) na escravidão moral do pecado (1Jo 3.8; Jo 8.34,44); essa e a constante atuação maligna.

Para vencer essa tragédia humana, temos a garantia da presença especial do próprio Filho de Deus na Sua Igreja, especialmente, enquanto ela anda em cumprimento da sua missão de formar discípulos do Senhor em todas as nações (Mt 28.18-20). A miséria provocada pelo pecado e as oposições a Deus presentes no mundo são refreadas e vão sendo revertidas pelo avanço do Reino de Deus (Mt 16.16) a medida que a Igreja avança em missão, consciente da gravidade dessa jornada e em profunda dependência daquele que e, ao mesmo tempo, o redentor do seu povo.

A miséria humana e os seus efeitos são amplos e universais. Afetam absolutamente todas as coisas, todas as pessoas em todo o ser; nada nem ninguém conseguem escapar dos seus efeitos, ainda que se manifestem em intensidades distintas na criação.

A boa noticia do Evangelho e que, em Cristo, Deus destruiu o poder dessa miséria, libertando da sua escravidão todos os que recebem a Sua palavra salvadora (Jo 8.32,36) e o próprio Filho de Deus como o seu Redentor (Jo 1.12). Na cruz, o inimigo das nossas almas foi vencido e as suas obras destruídas (1Jo 3.8), dentre as quais a maior e a escravidão espiritual. O Evangelho vem resgatando vidas desde a queda e tem se revelado plenamente desde a ressurreição do Filho de Deus.

Cumprir a tarefa missionaria e tomar parte na execução do resgate e restauração da Criação e na redenção de pessoas da miséria espiritual. Você também e chamado para tomar parte nessa tarefa, sendo um humilde agente de proclamação, apoio e suporte missionário, pessoalmente e através da sua Igreja. Ore pelos missionários para que Deus os preserve de todo o mal e dos seus ataques; para que o Senhor os conserve humildes ou os conduza ao arrependimento, quando necessário, em constante, aguda e firme segurança de que e o Seu poder e a majestade da revelação da Sua gloria que faz dissipar as trevas e brilhar a luz da Sua presença através do Seu Filho por nosso intermédio.

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