A hora da partida


Um dia chegará o fim da nossa carreira missionária e da nossa carreira cristã. Um dia partiremos do campo. Outro dia partiremos desta vida. A hora da partida virá mais cedo ou mais tarde para todos nos! E quando esse dia chegar, o que será importante deixar para glória de Deus e avanço do seu reino na terra? Quando escreveu sua segunda carta a Timóteo, Paulo estava preso em Roma e sabia que não teria muito tempo neste mundo. Logo seria morto por causa do Evangelho. Ele estava de partida: “Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida é chegado”. Quando chegou a hora de partir, o que o apostolo Paulo considerou importante?

No caso de Paulo, a partida do campo missionário e do mundo ia acontecer simultaneamente. No nosso caso, pode acontecer uma, depois a outra. Quando você partir do campo missionário ou do campo da vida é importante deixar um legado de fidelidade a Deus (2Tm 4.7). O mais importante no final não é o sucesso ou as realizações ministeriais. Paulo não estava contabilizando as igrejas que fundou, as pessoas que ganhou para Jesus, os obreiros que formou ou as cartas que escreveu. O que ele estava enfatizando para Timóteo era que tinha “combatido o bom combate, completado a carreira e guardado a fé”.

Ele começou e estava terminando sua vida cristã vivendo fiel a Deus, fiel ao evangelho de Cristo a despeito de sofrimentos, perseguições, injustiças, abandonos, enfermidades e lutas como escrevera aos coríntios: “Ora, além disso, o que se requer dos despenseiros e que cada um deles seja encontrado fiel”.

Sobre Jesus, Paulo disse: “Foi fiel até a morte, morte de cruz”. O próprio Jesus falou: “Se fiel ate a morte e dar-te-ei a coroa da vida”.

Quando partir do campo, deixe um legado de fidelidade a Deus, mesmo em meios às provações e lutas desta vida. Que os seus familiares, amigos e liderados possam ver em sua vida e ministério esse testemunho de fidelidade ao Senhor, de cumprimento do chamado que Ele te deu. Que na sua lapide seja escrito: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé”. Que todos digam: “Esse foi um fiel soldado de Jesus”.

Além do legado da fidelidade a Deus, quando você partir do campo deixe também um legado de sucessores fiéis (2 Tm 4.9-13). A equipe que Paulo formou era composta de cooperadores no reino de Deus. Todavia, eles não eram apenas trabalhadores para cumprir um propósito, eram também seus amigos íntimos como Timóteo e Lucas, aos quais Paulo chama de “filho na fé” e “médico amado”. Sua equipe também era bem variada nos dons, nas personalidades e nas idades. Timóteo era um jovem dedicado, o filho na fé. Tito era aquele que fortalecia e organizava as igrejas. Lucas era o companheiro fiel de Paulo e seu médico particular, alguém que usava seus dons e habilidades para servir aos servos de Deus. Priscila e Aquila representam o casal missionário experiente, que aconselha os mais jovens na fé e os encaminha na missão que Deus tem para suas vidas.

 Se você saísse hoje do campo, quantos sucessores deixaria? Quantas pessoas que você formou poderiam dar continuidade ao seu trabalho? Ou será que seu ministério e missão são concentrados na sua pessoa e, caso você saia, não poderão continuar? Um dos meus propósitos principais em Guiné-Bissau é formar pastores e líderes nacionais. Quando cheguei em 2011, a IPGB (Igreja Presbiteriana de Guine Bissau) não tinha nenhum pastor ordenado. Hoje, pela graça de Deus, temos cinco e mais cinco em formação, sem contar os presbíteros, diáconos e outros lideres que já formamos. Quem são seus sucessores no projeto que você desenvolve?

Quando você partir do campo, deixe também um legado de relacionamentos restaurados pela graça (2Tm 4.11,14-16). Paulo queria que Timóteo viesse logo ter com ele, pois sentia falta do seu amigo, além de coisas que Timóteo deveria trazer para suprir suas necessidades. Entre os pedidos que Paulo fez, está um que tem a ver com relacionamentos restaurados pela graça: “Procure Marcos e traga-o com você porque ele pode me ajudar na obra de Deus”. Conhecemos bem o desentendimento que Paulo teve com Barnabé por causa de Marcos. Este os acompanhou na primeira viagem missionaria, mas no meio do caminho, os abandonou. Quando de partida na segunda viagem missionaria, Barnabé queria leva-lo novamente, mas Paulo não permitiu, havendo desavença entre eles. Décadas depois, Paulo mostrou que sua falta de confiança em Marcos tinha sido superada pela graça de Deus. Houve perdão e restauração da amizade, da comunhão e da cooperação na obra missionária. Agora Paulo queria Marcos com ele, pois lhe seria útil no ministério.

Pela graça de Deus podemos superar as maiores desavenças na vida e no ministério. Quem nunca se desentendeu com um colega de ministério ou com um irmão em Cristo? Assim como Deus nos perdoou, podemos perdoar também, restaurando a amizade, a comunhão e a cooperação. Um relacionamento restaurado inclui também não guardar amargura ou levar amargura para casa. Paulo fala de Alexandre, o latoeiro, provavelmente um fabricante de ídolos como Demétrio em Éfeso. Alexandre fez muito mal a Paulo, mas ele o entregou nas mãos do Senhor. Não estava amargurado ou querendo vingança. Os crentes de Roma, também com medo da associação com Paulo trazer-lhes dificuldades, não apareceram no tribunal para lhe dar apoio moral e espiritual. Paulo também não ficou ressentido, pois sabia que Senhor estava com ele.

Por favor, não saia do campo brigado com seus colegas de equipe e nacionais, nem com amargura no coração. Resolva suas desavenças. Seja humilde, peça perdão, restaure a amizade, a comunhão, a cooperação e prossiga de cabeça erguida. Não saia do campo com nenhuma pendência: seja ela financeira, moral, espiritual ou relacional. As estatísticas de missões têm mostrado que a maior dificuldade no campo tem sido os problemas de relacionamentos entre os missionários e entre os missionários e os nacionais.

Quando você partir do campo, deixe também um legado de atualização ministerial (2Tm 4.13). Timóteo deveria encontrar João Marcos, passar na casa de Carpo e trazer a capa, os livros e os pergaminhos. A capa servia para Paulo se aquecer do frio, e os livros e pergaminhos? “Os pergaminhos seriam escritos importantes preservados em rolos caros de pele de animais. Os livros provavelmente eram rolos de papiro. Alguns deles eram certamente copias pessoais raras de livros do Antigo Testamento. Outros podem ter sido as próprias cartas de Paulo, das quais ele mantinha cópias. Alguns poderiam até mesmo estar em branco, nos quais ele escreveria outras coisas”(John MacArthur, “O Livro sobre Liderança”, p. 167). O que transparece é o seguinte: Paulo, mesmo velho e perto da morte, não tinha parado de ler, de estudar e de escrever. Quanto tempo faz que você não lê um livro novo ou faz algum curso, seja ele de curta, media ou longa duração? Paulo morreu estudando, em constante atualização ministerial. Jesus aos doze anos estava na casa do Pai, discutindo com os doutores da lei sobre a Palavra de Deus e não parou de fazer isso até a sua morte.

Ao partir do campo ou da vida, deixe esse legado de atualização ministerial, o legado de alguém que estava em constante aprendizado, em crescimento continuo, trazendo sempre para o seu povo um conteúdo bíblico, prático e relevante para os dias atuais.

Quando você partir do campo, por fim, deixe um legado de uma partida em paz (2Tm 4.6-8,18). Partimos em paz quando temos consciência que cumprimos o nosso dever, que cumprirmos cabalmente o ministério que o Senhor nos deu. Numa linguagem missiológica, quando cumprimos a missão de Deus no mundo. Paulo tinha certeza que podia partir em paz porque fez o que Deus lhe mandou fazer: ser uma testemunha para os gentios. Ele gastou sua vida nessa nobre tarefa. Por isso, quando estava partindo, sua consciência estava tranquila, em paz. Uma das últimas palavras de Jesus antes da sua partida deste mundo foi: “Está consumado”, ou seja, realizei a obra que o Pai me conferiu com fidelidade; deixei sucessores para continuar o meu ministério; reconciliei o homem com Deus e com o seu semelhante; parti em paz, tranquilo porque fiz a vontade de Deus.

Que a exemplo de Paulo e de Jesus, sua partida seja a realização de uma vida por causa do legado de fidelidade a Deus, do legado de sucessores fieis, do legado de relacionamentos restaurados pela graça, do legado de atualização ministerial e do legado de uma partida em paz que deixou para os que ficam.

 

Rev. Paulo Serafim é missionário da APMT em Bissau - Guiné Bissau 

rev_serafim@yahoo.com.br

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